SÃO PAULO — A capital paulista registrou o setembro mais chuvoso desde o início das medições, em 1995. Até a manhã de quarta-feira (16), foram acumulados 249 milímetros de chuva, quase quatro vezes a média esperada para todo o mês, de 66 mm, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou o recorde com uma série histórica iniciada em 1943. Até 14 de setembro, a estação do Mirante de Santana, na zona norte, havia registrado 253,8 mm. O volume supera a média histórica mensal de 83,3 mm e também o recorde anterior, de 1983, quando o acumulado chegou a 243,1 mm.
Os dados do CGE e do Inmet usam medições diferentes, mas apontam para a mesma conclusão. Outras cidades do Estado de São Paulo também tiveram recordes próprios de chuva em setembro, entre elas Iguape, no litoral sul, e Bragança Paulista, no leste. Em Campinas, a série histórica do Instituto Agronômico indica que este é o setembro mais chuvoso já registrado. O recorde anterior era de 257 mm, em 1923.
Fatores que aumentaram a chuva
Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que um episódio desse tipo resulta da combinação de fatores. A corrente de jato subtropical atuou com mais intensidade e em posição mais ao norte, mantendo as frentes frias por mais tempo sobre a região.
Ao mesmo tempo, ventos levaram ar quente e úmido das regiões Norte e Centro-Oeste para o Sudeste. Quando essa umidade encontrou as frentes frias, ocorreram chuvas mais fortes, frequentes e persistentes.
O cenário também é influenciado por um El Niño classificado pelo Inmet e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) como muito forte, com mais de 90% de probabilidade de permanecer assim até novembro. O aquecimento das águas do oceano Pacífico altera os padrões de chuva e aumenta, no Sul e em parte do Estado de São Paulo, a chance de precipitações acima da média.
O Inmet já havia previsto, em agosto, um setembro mais chuvoso do que o normal para o Sudeste. Ávila ressalta, porém, que o El Niño não explica sozinho o volume registrado. O fenômeno de 2026 está em rápido fortalecimento e apresenta interação mais intensa entre o oceano e a atmosfera, condição que pode contribuir para a persistência das chuvas.
A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, também cita a Oscilação Antártica. O fenômeno entrou em fase negativa em agosto, favorecendo a chegada de mais frentes frias ao centro-sul do Brasil. Foram seis frentes frias em apenas 15 dias. Segundo Pegorim, o El Niño favorece fases negativas da Oscilação Antártica, mas não é o responsável direto pela chuva na região.
Previsão e riscos
Setembro ainda não terminou, e o acumulado pode aumentar. A previsão do Inmet indicava períodos de sol e elevação gradual da temperatura na sexta-feira. Para sábado, a expectativa era de céu encoberto e pancadas de chuva. Uma nova frente fria deve chegar ao Estado no domingo (20/9), conforme William Minhoto, meteorologista da Defesa Civil do Estado de São Paulo.
Modelos meteorológicos apontam ainda outras duas frentes frias ao longo da semana seguinte. A sequência pode elevar o risco de deslizamentos, alagamentos, enxurradas e aumento do nível de rios e córregos, principalmente na faixa leste do Estado, que inclui o Vale do Ribeira, a Serra do Mar e o litoral.
A Defesa Civil também alerta para a possibilidade de queda pontual de árvores. O monitoramento está reforçado na Região Metropolitana de São Paulo, na Baixada Santista, no Litoral Norte, no Vale do Ribeira e na Serra da Mantiqueira.
O solo permanece encharcado e pode continuar oferecendo risco mesmo após uma pausa na chuva. Entre os sinais de possível movimentação do terreno estão rachaduras e a inclinação de árvores, postes ou muros, além de ruídos incomuns vindos de encostas.
Durante temporais, a orientação é não atravessar ruas alagadas ou enxurradas e manter distância de rios e córregos. Em caso de risco, a recomendação é deixar o local e acionar a Defesa Civil pelo 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.



