A formação de uma aliança entre Ciro Gomes (PSDB) e o Partido Liberal (PL) para a disputa pelo governo do Ceará expôs uma mudança no mapa político das eleições de 2026. O partido é ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que se tornou inelegível por oito anos após uma ação movida pelo PDT, antiga legenda de Ciro.
Ciro publicou um vídeo nas redes sociais para agradecer ao PL pelo apoio. A coligação reúne também André Fernandes (PL), deputado federal e uma das principais lideranças bolsonaristas, e Capitão Wagner (União Brasil). Os dois já estiveram no campo oposto ao de Ciro na política cearense.
O acordo foi criticado dentro do próprio PL. Michelle Bolsonaro (PL), candidata ao Senado pelo Distrito Federal, afirmou estar insatisfeita com a parceria. Ela considera Ciro “o principal responsável” pelo processo que levou à inelegibilidade de Bolsonaro e também citou as críticas feitas por ele ao ex-presidente e aos filhos dele.
Ciro e Bolsonaro foram alvos de ataques políticos mútuos ao longo dos últimos anos. Em entrevistas, Ciro já chamou o ex-presidente de “corrupto”, “fascista”, “incompetente”, “imitador de Trump” e “ladrão de galinhas”. Agora, ao enfrentar Elmano de Freitas (PT), candidato à reeleição, Ciro apresenta a aliança com o PL sob o mote: “É hora de união para mudar os rumos do Ceará”.
Capitão Wagner afirmou que não ignora o histórico de conflitos. Em nota, disse que ele e Ciro estiveram em lados opostos e tiveram embates duros, mas que o próprio Ciro reconheceu ter personalizado críticas, sido injusto em algumas acusações e pedido desculpas. Wagner resumiu a aproximação como a compreensão de que nenhum interesse pessoal, vaidade ou mágoa deveria ficar acima do Ceará. Ciro Gomes e André Fernandes não responderam aos contatos feitos por email e telefone.
Para o advogado e analista político Melillo Dinis, a composição entre partidos não depende necessariamente de afinidade ideológica. Segundo ele, as decisões são organizadas em torno dos interesses e das vantagens das lideranças. “Não é uma conta de chegada. É um acordo de partida”, afirmou.
A aproximação em Minas Gerais
A mudança de posição também aparece na relação entre Alexandre Kalil (PDT) e Aécio Neves (PSDB), em Minas Gerais. Em 2016, Kalil disputou a Prefeitura de Belo Horizonte contra João Leite (PSDB), apoiado pelo grupo de Aécio. Durante aquela campanha, Kalil fez críticas duras ao deputado e disse ter tido “vontade de matar” Aécio quando ele se aliou a partidos adversários.
Kalil venceu a eleição. Dez anos depois, lançou-se candidato ao governo de Minas Gerais, e o PSDB passou a integrar sua chapa após articulação de Aécio. O acordo incluiu Carlos Mosconi (PSDB), ex-deputado federal, como candidato a vice-governador.
Aécio, presidente nacional do PSDB, chegou a ser cogitado para concorrer ao Senado na mesma composição, mas anunciou, em 4 de agosto, que não disputará cargos em 2026. Kalil reconheceu a mudança na relação e declarou que havia atacado Aécio em 2016, mas que o tucano nunca havia respondido. Também disse não guardar mágoa e classificou a aproximação como uma decisão política.
Antigos adversários no Distrito Federal
No Distrito Federal, José Roberto Arruda (PSD) e Maria de Lourdes Abadia (PSD) voltaram a dividir espaço político depois de uma disputa iniciada na eleição de 2006. Abadia era governadora e buscava a reeleição, mas perdeu para Arruda.
A reaproximação ocorreu depois que Abadia se filiou ao PSD, em março. O partido abriga o projeto de Arruda de retornar ao Palácio do Buriti. Desde então, ela participou de articulações do grupo e apareceu ao lado do ex-governador em encontros partidários e na convenção que confirmou a candidatura dele ao governo.
Arruda afirmou que os dois já foram aliados e adversários, mas mantiveram o respeito e a amizade pessoal quando estavam em caminhos políticos diferentes. Abadia não respondeu aos contatos feitos por mensagem em seu perfil oficial.
Bahia e Rio também têm alianças entre rivais
Em Lauro de Freitas, na Bahia, Débora Régis (União Brasil) e Antônio Rosalvo (PT) passaram de adversários a aliados em dois anos. Nas eleições de 2024, Débora venceu Rosalvo por 60% a 40%. Durante a campanha, os dois trocaram críticas e acusações sobre a administração municipal.
Em um ato político, Rosalvo disse que iria “tapar a boca” de Débora ao responder a críticas sobre problemas da cidade. Ela afirmou que o adversário usava contra ela o fato de ser mulher na política. Depois, Rosalvo também mencionou um tiro que atingiu um de seus aliados e pediu que a disputa não fosse marcada pela violência.
Em 2026, Rosalvo deixou a base do PT, filiou-se ao PSDB e passou a integrar o grupo político de ACM Neto, vice-presidente nacional do União Brasil. Candidato a deputado estadual, ele recebe apoio público de Débora. Em agosto, durante um evento em Lauro de Freitas, ela defendeu a candidatura dele à Assembleia Legislativa da Bahia.
Rosalvo afirmou que a expressão sobre tapar a boca não foi usada em sentido literal, mas como figura de linguagem relacionada à disputa política e à resposta administrativa. Também disse que não nega os embates de 2024, descritos por ele como uma eleição disputada, com tensão e divergências entre os grupos.
No Rio de Janeiro, Wilson Witzel (Democrata) desistiu da candidatura ao governo estadual para apoiar Anthony Garotinho (Republicanos). Witzel havia lançado a pré-candidatura ao Palácio Guanabara em julho, mas retirou o nome em 1º de agosto, durante a convenção estadual do Democrata.
A justificativa apresentada foi eleitoral: formar uma frente para levar Garotinho ao segundo turno. Os dois já estiveram em lados opostos. Witzel usava sua trajetória na magistratura para questionar o adversário, enquanto Garotinho dizia que ele tinha “problemas de corrupção”.
Ao anunciar o apoio, Witzel mencionou a trajetória jurídica dos dois e afirmou que havia “uma história de injustiças”. Também disse que processos que levaram Garotinho à prisão foram posteriormente anulados pela Justiça.



