A candidatura de Augusto Cury passou a influenciar a disputa presidencial ao crescer nas pesquisas e alcançar um patamar inédito entre os nomes que não estão ligados a Lula ou Flávio Bolsonaro. Na Nexus/BTG, o escritor avançou de 2% para 11% entre 24 e 31 de agosto. Na AtlasIntel, subiu de 1,6% para 7,8%.
Cury também ganhou mais de dois milhões de seguidores no Instagram em três dias. Adversários estudam pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma investigação sobre a origem desse crescimento. O publicitário Sergio Lima, responsável pelo marketing da campanha desde agosto, negou o uso de robôs e afirmou que o candidato apenas diz aquilo que o eleitor quer ouvir.
A força de uma candidatura sem carreira política
Psiquiatra e escritor, Cury declarou R$ 242 milhões em bens à Justiça Eleitoral, incluindo 17 fazendas. Sua proposta se apoia na ideia de uma “mente capitalista e coração social” e na rejeição à escolha entre os grupos políticos que hoje concentram a disputa.
O candidato afirma ter crescido “sem dinheiro, sem máquina, sem palanque”. A estrutura partidária de sua campanha é, de fato, menor que a dos principais concorrentes. O Avante tem sete deputados federais, o que garante 35 segundos de propaganda televisiva e R$ 72,5 milhões em fundo eleitoral. Lula dispõe de 5 minutos e 32 segundos de propaganda e R$ 881,7 milhões do PL.
A falta de uma estrutura partidária ampla, porém, não significa que Cury seja desconhecido. Antes de entrar na política, ele construiu uma carreira como escritor e formou um público ao longo de décadas.
O discurso do candidato trata a polarização como um problema a ser enfrentado, com o Brasil apresentado como paciente e a divisão política como doença. Outros nomes também tentam ocupar esse espaço. Renan Santos passou uma década na política antes de se apresentar como alguém de fora, enquanto Pablo Marçal continua tentando preservar seu projeto político, embora tenha sido cassado.
O voto de protesto
A tradição do voto de protesto no Brasil remonta à eleição de outubro de 1959, quando a rinoceronte Cacareco recebeu cerca de cem mil votos para vereadora de São Paulo. O vereador humano mais votado teve 10.214 votos. Em 1988, o chimpanzé Tião recebeu 400 mil votos no Rio e teria terminado em terceiro na disputa pela prefeitura.
Com a implementação gradual da urna eletrônica, a partir de 1996, esse tipo de manifestação passou a depender de candidatos registrados, filiação partidária e uma estrutura mínima de campanha. Enéas Carneiro, Levy Fidelix e Padre Kelmon ocuparam esse espaço em momentos diferentes. Fernando Collor e Jair Bolsonaro conseguiram transformar o desencanto com a política em vitórias eleitorais.
O eleitor que escolhe uma candidatura alternativa nem sempre espera que ela vença. O voto pode funcionar como protesto, mensagem aos candidatos mais competitivos ou tentativa de projetar um nome para uma disputa futura. Ainda assim, o resultado acaba interferindo na definição de quem governará.
Na semana em que Cury avançou nove pontos, Flávio Bolsonaro caiu quatro e Lula oscilou dois para baixo. O movimento aumentou a atenção dos dois principais grupos sobre o eleitorado atraído pelo escritor. Lula já busca contato com Cury, que anteriormente apoiou Marina Silva, candidata ao Senado por São Paulo na chapa governista.
O crescimento do escritor não garante sua vitória, mas altera uma disputa que, até então, era marcada pela dificuldade de a terceira via avançar. À medida que Cury ganha espaço, Lula e Flávio Bolsonaro também passam a disputar o eventual eleitorado que ele conseguir reunir.




