SÃO PAULO — O tratamento do câncer de mama triplo-negativo passou a contar com estratégias que vão além da quimioterapia. Conforme as características do tumor e da paciente, podem ser consideradas imunoterapia, terapias direcionadas a grupos específicos e anticorpos conjugados a medicamentos, conhecidos como ADCs.
O avanço no conhecimento sobre a biologia desse subtipo também aumentou a importância da avaliação individualizada e da escolha da primeira linha de tratamento. O assunto foi discutido em um encontro que reuniu o oncologista Antonio Carlos Buzaid, Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, e Elisangela Moreira, que recebeu o diagnóstico aos 37 anos.
A conversa tratou da identificação da doença, das mudanças nas opções terapêuticas, da qualidade de vida, do acesso à informação e dos desafios enfrentados pelas pacientes durante o cuidado.
Incidência e falta de informação
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil registre 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026–2028. Entre as mulheres, a doença é o tipo de câncer mais incidente, desconsiderados os tumores de pele não melanoma, e representa cerca de 30% dos novos casos estimados.
Em 2024, foram registradas 20.849 mortes por câncer de mama no país, conforme o Atlas de Mortalidade por Câncer/SIM. Uma pesquisa Datafolha encomendada pela Gilead Oncology, em 2023, ouviu 1.007 mulheres de 25 a 65 anos de todas as regiões brasileiras. Embora 69% tenham afirmado estar bem-informadas sobre câncer de mama, apenas 11% conseguiram citar algum tipo de tumor mamário ou estágio da doença. Outras 16% acreditavam que todos os cânceres de mama eram iguais.
“Existem diferentes subtipos, com características biológicas próprias”, afirmou Antonio C. Buzaid, diretor médico geral dos Centros de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, da Rede Américas. Para ele, reconhecer essas diferenças ajuda a orientar a avaliação clínica e as possibilidades de tratamento.
Características do subtipo
O câncer de mama triplo-negativo corresponde a cerca de 10% a 15% dos casos. A denominação está relacionada à ausência de receptor de estrogênio, receptor de progesterona e superexpressão de HER2, características usadas na classificação do tumor. Por isso, tratamentos hormonais e terapias voltadas ao HER2 não são aplicados da mesma maneira nesses casos.
Esse subtipo é associado a um comportamento mais agressivo e a desafios terapêuticos maiores do que os observados em alguns outros tipos. Quando ocorre metástase, situação em que células originadas na mama chegam a órgãos ou tecidos distantes, como ossos, fígado, pulmões ou cérebro, a definição do tratamento inicial se torna ainda mais relevante.
A escolha da estratégia leva em conta características do tumor, biomarcadores, tratamentos já realizados, condição clínica, possíveis benefícios e riscos e impactos na qualidade de vida. No câncer de mama metastático, a primeira linha pode influenciar as alternativas avaliadas nas fases seguintes do cuidado.
Cuidado além do tumor
Para Luciana Holtz, o planejamento precisa considerar também a realidade da paciente fora do consultório. O percurso pode envolver dificuldades para obter o diagnóstico, compreender as opções de cuidado, reorganizar a rotina, lidar com efeitos emocionais e formar uma rede de apoio.
Entre os possíveis impactos estão efeitos adversos, fadiga, controle de sintomas, ansiedade relacionada aos exames, alterações no trabalho, na vida financeira, na sexualidade, na imagem corporal, na autonomia, nas relações familiares e nos projetos pessoais. Informação clara, apoio adequado e participação nas decisões são apontados como partes importantes desse processo.
Fernanda Fortes, Medical Scientist Associate da Gilead Sciences Brasil, afirmou que abordar o câncer de mama triplo-negativo também exige considerar as histórias e experiências individuais das pacientes, além dos dados científicos e das opções terapêuticas.
Ao final do encontro, os participantes destacaram que o câncer de mama reúne diferentes subtipos, que o conhecimento sobre a forma triplo-negativa continua avançando e que o cuidado deve incluir qualidade de vida, autonomia, acesso a informações confiáveis e participação da paciente nas decisões.




