NOVA YORK — A defesa da soberania nacional e a crítica à influência externa deram o tom do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira, 22 de setembro. Sem citar Donald Trump diretamente, o presidente brasileiro afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Trump discursou logo depois, mas não mencionou o Brasil. Os dois presidentes participaram da 81ª edição do encontro, que reúne líderes de 193 países membros da organização. Lula busca a reeleição, enquanto Trump está em campanha para a eleição de “meio de mandato” nos Estados Unidos, que define os representantes da Câmara e do Senado.
Guerra, Gaza e Tribunal Penal Internacional
Lula criticou a atuação da ONU diante dos conflitos e afirmou que o direito de veto das grandes potências no Conselho de Segurança é uma fonte dos problemas da organização. O órgão tem 15 países, dos quais cinco são membros permanentes: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia.
O presidente brasileiro disse que o Estreito de Ormuz virou uma trincheira de guerra e associou o conflito ao aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos. Trump, por sua vez, agradeceu ao Conselho de Segurança por condenar ataques atribuídos ao Irã contra navios comerciais e afirmou que a marinha norte-americana retirou “mais de um bilhão” de barris de petróleo do estreito.
As divergências também apareceram na discussão sobre Gaza. Trump declarou que a situação estava resolvida, com o retorno dos reféns israelenses e o salvamento de milhares de vidas. Lula falou em dor e trauma para gerações de palestinos e citou o genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças, além das vítimas civis israelenses dos ataques do Hamas.
Lula defendeu a atuação do Tribunal Penal Internacional (ICC) e afirmou que a impunidade pode continuar caso a corte e seus integrantes sejam perseguidos. Trump disse que não permitirá investigações ou processos contra militares dos Estados Unidos pelo tribunal, que classificou como “antiamericana”, e pediu a saída dos países integrantes.
América Latina e tecnologia
Trump apresentou como êxitos ações dos Estados Unidos na Venezuela e em Cuba. Ele citou o sequestro de Nicolás Maduro, a libertação de políticos venezuelanos e um acordo sobre petróleo. Sobre Cuba, afirmou que o regime está falido e que cairá. Lula condenou intervenções externas, defendeu que o povo venezuelano decida o próprio destino e classificou como ilegais o embargo econômico e o cerco energético contra Cuba, que atingiriam 10 milhões de pessoas.
Na área tecnológica, Lula defendeu regras para a inteligência artificial e para as Big Techs. Também criticou empresas de apostas, dizendo que a indústria transforma o vício em lucro e destrói famílias. Trump afirmou que não pretende regular a tecnologia, chamada por ele de “superinteligência”, mas encorajá-la.
Lula ainda defendeu o Pix, rejeitou pressões de multinacionais e criticou medidas protecionistas associadas à pauta ambiental. Segundo ele, o desmatamento na Amazônia caiu pela metade e chegou ao menor nível em 11 anos. O presidente também defendeu um país livre do feminicídio e afirmou que nenhuma mulher deve viver sob ameaça de violência.



