A imagem de André Mendonça passou a ser usada por uma força política como símbolo de uma disputa pelo país, avalia o teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Para ele, o ministro vem ocupando o espaço de herói do Judiciário por meio de uma narrativa religiosa, diferente da mobilização que antes esteve associada a Joaquim Barbosa e Sergio Moro.
Pacheco afirma que Mendonça deixou de estar restrito à militância bolsonarista radical e alcançou parte do eleitorado evangélico moderado. A trajetória de pastor presbiteriano, servidor de carreira e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é apresentada, nessa leitura, como um chamado bíblico. O ministro passou a ser descrito por apoiadores como o “colocado por Deus”.
Segundo o teólogo, essa interpretação transforma um embate jurídico e político em uma narrativa de guerra espiritual. Ele diz que muitas pessoas não dominam limites jurídicos, procedimentos ou o funcionamento do plenário e, por isso, assimilam com mais facilidade a ideia de que um pastor estaria sendo perseguido por expor uma relação entre um juiz e um banqueiro corrupto.
Uma nova base de apoio
O alcance da imagem, segundo Pacheco, já pode ser percebido entre parentes, amigos e outras pessoas do convívio social. Ele afirma que se formou uma espécie de proteção em torno de Mendonça e avalia que uma eventual decisão do plenário contra o ministro poderia ser interpretada como perseguição religiosa contra o único integrante da corte que é pastor.
A presença de um boneco inflável de Mendonça na manifestação de 7 de Setembro, na Avenida Paulista, em São Paulo, também indicaria a tentativa de apresentá-lo como contraponto a Alexandre de Moraes. Pacheco diferencia esse processo do que ocorreu com Joaquim Barbosa e Sergio Moro, associados a uma mobilização contra a corrupção.
Na avaliação dele, Moro teve apoio de setores evangélicos por meio da parceria com Deltan Dallagnol, que levou a pauta da corrupção a igrejas. Mendonça, por outro lado, estaria sendo transformado em herói de uma disputa entre forças políticas interessadas em definir os rumos do país.
Religião e democracia
Pacheco alerta que apresentar conflitos políticos como uma luta entre o bem e o mal pode enfraquecer o Estado laico. Ele afirma que o uso político da linguagem cristã faz parte de um movimento internacional ligado a forças ultraconservadoras e cita sua presença em partidos de extrema-direita na Europa e em governos de direita na América Latina.
O teólogo menciona discursos sobre segurança pública, combate ao narcoterrorismo e guerra espiritual associados a Donald Trump, Nayib Bukele e Abelardo de la Espriella. Para ele, essa linguagem serve para criar vínculos e mobilizar setores populares.
Pacheco defende uma relação equilibrada entre política e igrejas, sem silenciar as comunidades de fé. Ele afirma que lideranças religiosas devem estimular a defesa da democracia, do Estado laico e dos direitos humanos, além do respeito às diferenças. Como exemplo, cita igrejas protestantes da Saxônia que realizaram cultos antes das eleições para mobilizar fiéis contra a AfD, partido de extrema-direita alemão que, segundo ele, flerta com o neonazismo.
Na avaliação do teólogo, as igrejas não estão separadas da vida pública: decisões políticas, políticas públicas e crises institucionais afetam os fiéis quando eles deixam os templos.



