RIO DE JANEIRO — O preço da picanha subiu 7,8% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, nos 44 primeiros meses do terceiro governo Lula. O avanço ficou abaixo da alta registrada durante o governo Jair Bolsonaro: o corte acumulou inflação de 38% entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022.
Os dados fazem parte de um levantamento do economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A picanha passou a integrar o cálculo do índice em janeiro de 2020, por isso não há uma série específica para o corte em 2019.
Oferta maior ajudou a conter preços
Romão afirma que o comportamento da picanha está ligado principalmente a fatores de oferta, e não a decisões dos governos. Entre eles estão o aumento da produção, as condições climáticas e os custos de commodities usadas na alimentação animal.
Em 2025, o Brasil abateu 42,9 milhões de cabeças de bovinos sob inspeção sanitária, o maior número de uma série histórica iniciada em 1997, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado foi 8,2% maior que o de 2024, que havia sido o recorde anterior. O crescimento dos abates vinha sendo observado desde 2022.
Durante o governo Bolsonaro, os preços dos alimentos foram pressionados pelos efeitos da pandemia, pela guerra da Rússia contra a Ucrânia, pela alta do dólar e por problemas climáticos. Esses fatores também elevaram o custo de insumos usados na alimentação dos animais.
“O que prepondera são questões de oferta”, diz Romão.
Preço ainda pesa no orçamento
Apesar de a inflação da picanha ter avançado em ritmo menor no governo Lula, o nível dos preços continua afetando o orçamento das famílias. Em agosto de 2026, o quilo dos cortes de carne de primeira custava, em média, R$ 50,49 na cidade de São Paulo, segundo pesquisa do Procon-SP em convênio com o Dieese.
O valor nominal era de R$ 42,54 em agosto de 2022 e de R$ 23,61 em agosto de 2019. A pesquisa considera coxão mole, patinho e um terceiro corte com preço menor que os outros dois.
A alimentação no domicílio acumulou alta de 60,8% entre abril de 2020 e agosto de 2026, acima da variação de 42,7% do IPCA no mesmo intervalo. Nos 44 meses entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, a inflação da alimentação em casa foi de 12,9%. No período equivalente do governo Bolsonaro, entre janeiro de 2019 e agosto de 2022, a alta chegou a 54,2%.
Produção e consumo de carne bovina
Fernando Iglesias, coordenador de inteligência de mercado da consultoria Safras & Mercado, relaciona a inflação menor da picanha à oferta maior e ao endividamento das famílias. Para ele, a renda disponível limita a capacidade dos consumidores de absorver aumentos e favorece a troca da carne bovina por frango, carne suína, embutidos e ovos.
Dados da consultoria indicam que o consumo de carne bovina ficou abaixo de 25 kg por habitante em 2021, quando atingiu 24,94 kg. O indicador subiu para 30,79 kg em 2024 e ficou em 30,63 kg em 2025. A estimativa para 2026 é de 28,08 kg.
No segundo trimestre de 2026, o abate de bovinos cresceu 1,3% na comparação com o mesmo período de 2025 e 4% ante o trimestre anterior, segundo o IBGE. Iglesias também afirma que o país caminha para uma mudança no ciclo da pecuária, com menor participação de fêmeas nos abates. A retenção desses animais nos rebanhos é usada para reprodução, e a alteração pode reduzir a produção de carne ao longo dos meses.
Picanha e cerveja no debate político
O preço da picanha passou a ser usado no embate político desde as eleições de 2022. Em agosto daquele ano, Lula afirmou que a população voltaria a comer churrasco e picanha e a tomar cerveja.
Nas eleições atuais, Flávio Bolsonaro tem usado o nível dos preços dos alimentos para criticar Lula. Em uma agenda em São Paulo, o senador chegou a erguer uma peça de picanha. A campanha de Lula tem destacado indicadores econômicos desde 2023, além de medidas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a defesa do fim da escala 6×1.
A cerveja, também mencionada por Lula em 2022, acumulou inflação de 19,5% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. No intervalo de janeiro de 2019 a agosto de 2022, a alta foi de 19,2%.
Fábio Romão aponta o El Niño como o principal risco para a inflação dos alimentos a partir do final de 2026. O fenômeno pode alterar a distribuição das chuvas e afetar a produção agropecuária. Fernando Iglesias, por sua vez, afirma que os cortes traseiros de maior valor, como picanha, alcatra, maminha e filé mignon, continuam com preços elevados.



