A próxima safra brasileira pode enfrentar falta de fertilizantes depois de mudanças no comércio internacional e da interrupção do tráfego pelo Estreito de Ormuz. Notas técnicas internas do Ministério da Agricultura classificam como extremamente alto o risco para a oferta na safra 2026/27 e estimam um déficit de um a três milhões de toneladas de fosfatados. O volume poderia comprometer até 20% da demanda nacional.
Ricardo Tortorella, diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), afirma que o impacto não se limita ao transporte marítimo. A menor oferta de insumos também reduziu a operação de produtores brasileiros e indianos de DAP e MAP, fertilizantes minerais nitrogenados e fosfatados.
Dependência de importações
O Brasil compra do exterior cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Entre os nitrogenados, a dependência chega perto de 95%. Em 2025, o país importou praticamente toda a ureia consumida. A Agrinvest calcula que aproximadamente 41% desse volume, quase três milhões de toneladas, passou pelo Estreito de Ormuz antes de chegar aos portos brasileiros.
Após a interrupção do tráfego, o mercado global deixou de movimentar algo próximo de 1,3 milhão de toneladas mensais em embarques. A oferta de enxofre e ácido sulfúrico do Golfo também sofreu forte redução, derrubando entre 15% e 20% a taxa de operação de fabricantes de DAP e MAP no Brasil e na Índia.
A China, ao mesmo tempo, restringiu suas exportações de fosfato. Para Tortorella, os dois movimentos pressionaram o mesmo comprador: o agronegócio brasileiro, que depende de insumos importados para manter a produção.
Pressão sobre custos e produção
Carlos Fávaro, ministro da Agricultura e Pecuária, alertou em março que a tensão havia elevado o preço doméstico da ureia em poucos dias. O setor passou a buscar fornecedores alternativos e a ajustar doses, medidas que podem aliviar a pressão no curto prazo, mas não eliminam a dependência externa.
A safra deste ano, acima de 180 milhões de toneladas, foi plantada com fertilizantes comprados antes do choque. A avaliação apresentada é que a próxima produção estará mais exposta aos custos e à disponibilidade dos insumos.
O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir a dependência externa de 87% para 50% até 2050. Enquanto isso, o governo federal discutiu fornecedores alternativos, prazos e embarques. Para Tortorella, a redução do risco exigiria combinar fornecedores múltiplos, estoques estratégicos, capacidade doméstica viável e portos em funcionamento.




