SÃO PAULO — Uma sessão de videogame na Escola Estadual Amador dos Santos Fernandes ficou mais cara quando restavam apenas quatro ingressos. O preço passou de 15 para 20 amadólares e subiu novamente à tarde, diante da procura. A atividade serviu para mostrar aos estudantes como a inflação afeta o poder de compra.
A moeda fictícia circula na escola da zona Leste de São Paulo. Os alunos podem receber amadólares por participar das aulas, ter bom desempenho nas avaliações e cumprir metas semanais de exercícios. Depois, usam o dinheiro interno para acessar experiências como cinema com pipoca, jogos, atividades esportivas e passeios culturais pela cidade.
Aprendizado baseado em escolhas
Como os preços das atividades variam, os estudantes entram em contato com conceitos como oferta e procura, juros, descontos e poupança. De acordo com Silas Marciel dos Santos, professor de história e idealizador do projeto, a iniciativa também contribuiu para o engajamento, a frequência e o clima escolar. “O projeto trouxe leveza, diminuiu os conflitos e deixou o ambiente mais divertido e alegre”, afirma.
O chamado “banco central” da escola imprimiu 15 mil cédulas neste ano, o triplo do volume produzido durante todo o ano passado. Parte dos alunos guarda amadólares para pagar a inscrição do campeonato interclasse, uma das principais atividades da escola.
Guilherme Rhyan Franca Valentim, de 13 anos, estabeleceu a meta de juntar 40 amadólares depois de pagar mais caro para jogar videogame. Isaac Sousa Santos, também de 13 anos, diz que passou a compreender melhor a importância de poupar. Naomi Vitorie Dias da Silva, de 14 anos, aprendeu a elaborar planilhas de gastos e a simular um orçamento doméstico, incluindo a formação de uma reserva de emergência.
Na escola, os alunos do sétimo e do oitavo ano também têm uma disciplina específica de educação financeira, incluída na grade curricular obrigatória.
Moedas e simulações em outras escolas
O Colégio Visconde de Porto Seguro criou o portocoin para trabalhar função, valor e circulação do dinheiro. As atividades avançam conforme a etapa de ensino: os anos iniciais abordam consumo consciente e sustentabilidade; os anos finais exploram planejamento, organização e pensamento crítico; e o ensino médio envolve a criação de uma carteira de investimentos a partir de um estudo de caso.
Iara Cabral de Athayde Bertolani, diretora do ensino fundamental do colégio, afirma que a relação das crianças com o dinheiro passou do cofrinho e das moedas para um ambiente mais digital e menos visível. Para ela, esse cenário reforça a importância do tema na formação escolar.
No Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, estudantes terminam o ensino médio fazendo simulações de declaração de Imposto de Renda. Durante o curso de letramento financeiro, eles analisam personagens com diferentes ganhos, bens e gastos e preenchem um formulário simulador.
Troca de brinquedos começa na infância
Na Escola AB Sabin, que atende crianças de 1 a 5 anos, as atividades relacionadas às finanças são associadas à sustentabilidade e à mudança de hábitos de consumo. Uma das propostas é a feira anual de troca de brinquedos realizada perto do Dia das Crianças.
Os alunos levam objetos que não usam mais e recebem vales para escolher itens trazidos pelos colegas. A escola também promove um “mercadinho” com alimentos de verdade, no qual as crianças simulam compras, vendas e negociações. Os professores trabalham os limites do orçamento e mostram que a quantidade de vales determina o que pode ser comprado.
Orientação nacional
O Ministério da Educação não tornou a educação financeira uma disciplina obrigatória. A Base Nacional Comum Curricular inclui o tema entre os assuntos contemporâneos transversais, com orientação para que ele seja desenvolvido de forma integrada às diferentes áreas do conhecimento.
O MEC também criou o programa Na Ponta do Lápis, que oferece formação a professores de estados e municípios que aderirem à iniciativa. A proposta envolve planejamento financeiro, consumo sustentável e cidadania fiscal.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor informa que, em 2026, mais de 81% das famílias brasileiras estavam endividadas. Para Silvia Adrião, diretora pedagógica da AB Sabin, as experiências da educação infantil ajudam a formar conhecimentos que poderão ser nomeados e aprofundados mais tarde.



