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Educação

Fadel propõe avaliações que testem o raciocínio no uso da inteligência artificial

Professor defende ampliar o ensino de estatística e avaliar como estudantes formulam perguntas, analisam respostas e refletem sobre a aprendizagem.

Fadel propõe avaliações que testem o raciocínio no uso da inteligência artificial
Foto: Divulgação Cogna

A inteligência artificial pode ser usada para revelar limitações nas avaliações escolares, segundo Charles Fadel, presidente do comitê de educação da OCDE. Para ele, provas baseadas principalmente na memória não medem se o estudante consegue compreender conceitos, formular perguntas e julgar a qualidade de uma resposta.

Fadel é professor e fundador do CCR (Centro para a Reformulação Curricular, em português), ligado à escola de pós-graduação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Em uma entrevista durante visita ao Brasil para participar de um evento sobre educação pública promovido pela Saber Educação, do grupo Cogna, ele defendeu mudanças no currículo, na formação dos alunos e na preparação para o mercado de trabalho.

Uma nova forma de avaliar

O professor sugeriu comparar duas versões de uma mesma redação: uma produzida sem tecnologia e outra feita com auxílio da inteligência artificial. Nesse processo, o estudante também deveria apresentar os comandos usados, analisar as diferenças entre os textos e explicar o próprio raciocínio. Fadel chama essa reflexão sobre o processo mental de metacognição.

Na avaliação proposta, não basta verificar se a resposta final está correta. O aluno precisa mostrar como chegou a ela, quais escolhas fez e de que forma avaliou o resultado produzido pela ferramenta. Para Fadel, essa abordagem ajuda a medir habilidades que não aparecem em testes centrados apenas na lembrança de fatos.

“A memória é boa, mas não é suficiente”, afirmou o professor.

Ele defende que fatos e procedimentos continuem sendo ensinados como base. A diferença estaria na proporção: menos atenção a conteúdos que a inteligência artificial executa com facilidade e mais espaço para conceitos, análise e julgamento. O estudante também deve aprender qual pergunta fazer, como formulá-la e como verificar a resposta recebida.

Currículo mais amplo

Fadel compara a reorganização do currículo a um jogo de Jenga. Alguns conteúdos seriam essenciais para sustentar a formação, enquanto outros poderiam ser revistos com cuidado, sem cortes generalizados. Na matemática, ele questiona a prioridade dada à trigonometria antiga em relação ao ensino de estatística e probabilidade modernas, que considera mais presentes em muitas profissões.

A proposta inclui ampliar o espaço para tecnologia, engenharia, ciências sociais e empreendedorismo. Psicologia, sociologia e antropologia também aparecem entre as áreas importantes para compreender melhor as relações humanas. O objetivo seria combinar conhecimento teórico e aplicado, diante de um mercado em que os empregos podem mudar continuamente.

O estudante bem preparado, na visão do professor, deve ter uma formação ampla e, depois, avançar em especializações. Fadel usa a palavra inglesa “polymathic” para descrever uma pessoa multifacetada e cita Leonardo da Vinci como exemplo. A escola deveria formar generalistas capazes de dialogar com áreas diferentes, enquanto a universidade permitiria um aprofundamento maior.

Acesso e desigualdade

Para levar essa mudança à rede pública, Fadel afirma que é necessária vontade política. Ele considera insuficientes quatro horas de aula por dia e diz que o Brasil possui recursos e capital humano para acelerar a educação pública. Também mencionou a disponibilidade de tecnologia em regiões que antes enfrentavam dificuldades de acesso.

O uso da inteligência artificial, porém, depende de uma formação adequada. Fadel citou estudos com consultores segundo os quais os profissionais de menor qualidade tiveram ganhos maiores com a ferramenta. Os consultores considerados bons apresentaram ganho de 17%, enquanto a metade inferior da distribuição teve ganho de 43%.

Na avaliação dele, é preciso separar três objetivos: saber sobre inteligência artificial, aprender com ela e aprender por meio dela. O primeiro envolve o letramento em IA. O segundo exige treinamento para que o estudante desenvolva a capacidade de usar a ferramenta com apoio. Já o terceiro ainda não está totalmente definido, porque a tecnologia não atingiu maturidade suficiente.

Formação para o trabalho

Fadel afirma que preparar o aluno para pensar por conta própria não entra em conflito com ensiná-lo a trabalhar com inteligência artificial. O conhecimento da ferramenta, segundo ele, não pode ser superficial nem servir para substituir o raciocínio.

A preocupação aumenta porque as empresas estão eliminando funções de nível baixo. Com isso, o estudante pode precisar assumir diretamente tarefas mais complexas ao terminar a universidade. Fadel avalia que as instituições de ensino superior precisam se adaptar, especialmente porque a academia costuma dar mais destaque à teoria do que à prática.

Para acompanhar a velocidade das mudanças, governos também teriam de rever seus processos. O professor compara o ritmo atual da inteligência artificial ao desenvolvimento do ChatGPT quatro anos atrás e afirma que a tecnologia avança mais rápido do que as estruturas públicas. Na avaliação dele, não seria possível levar de sete a dez anos para decidir um novo currículo.

A habilidade central, segundo Fadel, é a adaptabilidade. O estudante deve saber conduzir a inteligência artificial, decidir para que usar a ferramenta e manter o controle sobre as perguntas, as respostas e os objetivos do trabalho.

Texto produzido pela Redação Mapa do Dia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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