SÃO PAULO — A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo concluiu que a soldado Yasmin Cursino Ferreira teve intenção de matar Thawanna da Silva Salmázio durante uma abordagem em Cidade Tiradentes, na Zona Leste da capital. O relatório aponta indícios claros de homicídio doloso qualificado e afirma não haver elementos que caracterizem legítima defesa.
Yasmin está afastada do cargo desde o episódio. O relatório final do Inquérito Policial Militar foi enviado à Justiça Militar. Concluído em 1º de junho, o documento já indicava indícios de autoria e materialidade de homicídio.
Segundo a investigação, a soldado disparou e atingiu Thawanna na região do abdome. A vítima morreu horas depois. O relatório afirma que não havia risco iminente à vida que justificasse o uso da força letal. Também aponta falta de atuação progressiva antes do disparo, além de inadequação, falta de necessidade e desproporcionalidade no emprego da força.
Versões sobre o disparo
A versão apresentada pela policial foi de legítima defesa. Conforme o relato incorporado ao inquérito, Thawanna teria dado um tapa no rosto de Yasmin e avançado contra ela durante uma briga. A soldado teria tentado afastá-la antes de atirar.
Os depoimentos, porém, divergiram. Uma testemunha afirmou que a discussão começou pela policial e que Yasmin agrediu Thawanna antes de receber o tapa. Segundo esse relato, a PM recuou dois passos e efetuou o disparo sem dar ordem verbal.
A investigação analisou imagens de câmeras operacionais e laudos necroscópico, de levantamento do local, de disparo de arma de fogo e de lesão corporal da policial. O relatório também registrou indícios de transgressão disciplinar contra o policial Weden Silva Soares por descumprimento do procedimento de abordagem de pessoa a pé. Não foram identificados indícios de crime militar ou comum contra ele.
Como ocorreu a morte
Thawanna, que tinha 31 anos, era mãe de cinco filhos, com idades entre 5 e 13 anos, e trabalhava como ajudante-geral. Na madrugada de 3 de abril, ela caminhava com o companheiro, Luciano Gonçalvez dos Santos, quando o braço dele esbarrou em uma viatura da PM que passava pela Rua Edimundo Audran.
O policial Weden Silva Soares deu ré e questionou o casal. Em seguida, Yasmin, que estava no banco do passageiro, desceu do veículo e passou a discutir com Thawanna. A ação foi registrada apenas pela câmera corporal de Weden, porque a soldado não usava o equipamento.
Em 10 de abril, o Instituto Médico Legal emitiu o atestado de óbito, que apontou hemorragia interna aguda como causa da morte. Socorristas relataram que a demora no resgate contribuiu diretamente para o agravamento do quadro, porque o ferimento não foi estancado nos primeiros minutos após o tiro.
A família contestou a versão de legítima defesa. Daiana Martins, irmã de Thawanna, afirmou que a policial poderia ter imobilizado e algemado a vítima em vez de atirar. Também disse que os filhos enfrentariam a ausência da mãe.
As imagens e os depoimentos apresentaram divergências sobre o esbarrão no retrovisor, o motivo da abordagem, o início da discussão e a suposta agressão contra Yasmin. O vídeo mostra o soldado Weden dando ré e questionando o casal, mas não confirma visualmente o tapa atribuído a Thawanna. No momento do disparo, é possível ouvir o tiro, sem que a imagem mostre a ação.
A Secretaria da Segurança Pública informou que as circunstâncias eram investigadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa e pelo Inquérito Policial Militar, com acompanhamento das corregedorias. Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais, e as imagens, laudos e depoimentos foram anexados aos procedimentos.



