SÃO PAULO — O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu uma sindicância para verificar a conduta do ginecologista Osmar Trojan, de 82 anos, investigado por estupro contra uma paciente. O procedimento corre sob sigilo e está na fase inicial de apuração.
Nessa etapa, podem ser reunidas provas e colhidas manifestações por escrito ou em audiência. Se forem identificados indícios de infração ética, o conselho poderá instaurar um processo ético-disciplinar. Nesse processo, denunciante e denunciado podem apresentar provas e se manifestar, inclusive com acompanhamento de advogados.
O médico é representado pelo advogado Alessandro Fischer Martins Silveira, que negou as acusações. A defesa afirma que o inquérito também tramita sob sigilo e que a Justiça ainda não recebeu denúncia. “Demonstrará sua inocência”, declarou o advogado, ao dizer que espera apresentar a versão da defesa durante a instrução, com exercício do contraditório e da ampla defesa.
Relato da paciente
Esther Neves afirma que conheceu o ginecologista aos 16 anos e que ele era próximo de sua família, atendia sua mãe e era visto como uma figura paterna. Ela foi atendida por Osmar entre 2014 e 2022, em um consultório particular no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo.
Segundo Esther, durante consultas o médico realizou exames sem luvas, fez fotografias íntimas e exibiu vídeos pornográficos. Ela também relata que ele sugou seus seios sob a justificativa de verificar o que saía deles. A paciente diz que os atendimentos duravam cerca de duas horas e que diversas situações de cunho sexual eram apresentadas como parte dos exames.
Esther afirma ainda que o médico tirou fotografias de seus seios, vagina e ânus. De acordo com o relato, ele disse que as imagens seriam usadas em uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama. Em outra ocasião, teria mostrado conteúdo pornográfico e falado sobre o uso de um plugue anal.
A relação entre os dois, segundo a jovem, começou antes das consultas. O médico teria conhecido a mãe dela em 1992, quando trabalhava como telefonista em um hospital onde também atendia. Osmar fez o parto de Esther, frequentava a mesma igreja da família e chegou a enviar mensagens e fotos de viagens. Ela também trabalhou no consultório por cerca de um mês, durante as férias da secretária.
Esther diz que só compreendeu o caráter abusivo das situações depois de iniciar tratamento para questões de saúde mental. Em 2024, foi internada após uma crise de ansiedade. Ela afirma que faz acompanhamento psiquiátrico há anos e usa medicamentos para dormir e estabilizar o humor. Um atestado registra acompanhamento por ansiedade aguda com sintomas somáticos e menciona impacto funcional nas atividades cotidianas.
Investigação policial e versão do médico
O inquérito policial foi instaurado no 1° Distrito Policial de Itapecerica da Serra, após pedido do Ministério Público. A Secretaria da Segurança Pública informou que o homem foi formalmente indiciado por estupro, previsto no artigo 213 do Código Penal, e que as investigações continuam.
No interrogatório, porém, Osmar negou as acusações e disse que nunca praticou atos de conotação sexual durante os atendimentos. Ele afirmou que os exames eram realizados na presença da mãe da paciente ou de uma auxiliar.
O médico confirmou um exame retal em Esther, mas declarou que o procedimento ocorreu uma única vez, com luvas, por suspeita de endometriose. Também negou ter exibido vídeos pornográficos e disse que, em algumas situações, mostrava vídeos do YouTube sobre bolas de pompoarismo e autoexame das mamas.
Sobre as fotografias, Osmar confirmou uma sessão no consultório, mas afirmou que as imagens integravam uma campanha de combate ao câncer de mama. Segundo ele, Esther autorizou as fotos, levou o próprio figurino e recebeu os arquivos. Ele negou ter mostrado imagens de pacientes nuas e disse que não mantém esse tipo de arquivo.
O material também registra que o inquérito não havia sido finalizado e que o médico ainda não havia sido indiciado, informação que diverge do comunicado da Secretaria da Segurança Pública sobre o indiciamento formal.



