SÃO PAULO — Um novo laudo do Instituto de Criminalística manteve a conclusão de que a policial militar Gisele Alves Santana não cometeu suicídio. O documento foi anexado ao processo que apura a morte da agente e aponta que ela não poderia ter disparado contra a própria cabeça e terminado na posição em que seu corpo foi encontrado.
Gisele tinha 32 anos. O laudo foi juntado aos autos na sexta-feira (2), três dias antes do interrogatório do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu por feminicídio e fraude processual. A acusação afirma que ele matou a esposa e alterou a cena para simular um suicídio. O oficial nega o crime.
Assinado pela perita criminal Amanda Rodrigues Marinone, o documento respondeu a questionamentos apresentados pela defesa. A perícia manteve integralmente os resultados anteriores e considerou impossível a hipótese de suicídio diante das circunstâncias analisadas.
Testes contrariaram versão do réu
Entre os elementos examinados está a localização da arma, que ficava sobre um guarda-roupa com cerca de 2 metros de altura. Gisele tinha 1,65 metro. Os peritos também avaliaram a visibilidade a partir do banheiro e concluíram que Geraldo não conseguiria ver a esposa caída de dentro do box, como havia declarado que estava quando o disparo ocorreu.
O sentido do escorrimento de sangue no corpo da vítima também foi considerado incompatível com a versão de suicídio. A perita afirmou que os testes podem ser repetidos por outros especialistas e chegar ao mesmo resultado. No laudo, ela registrou: “reexecutados, esses experimentos produzem o mesmo resultado”.
O parecer foi elaborado depois que a defesa considerou insuficientes esclarecimentos anteriores dos peritos. Amanda Rodrigues Marinone escreveu que os questionamentos não apresentaram elemento capaz de alterar, complementar ou revisar as conclusões já obtidas.
Próximas etapas do processo
O interrogatório de Geraldo Leite Rosa Neto está marcado para a próxima segunda-feira (5), às 13h, no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo. Essa será a última etapa da instrução criminal antes da decisão sobre a possibilidade de o caso ser levado ao Tribunal do Júri.
Depois da audiência, o Ministério Público, o assistente de acusação, que representa a família de Gisele, e a defesa deverão apresentar suas manifestações finais. Em seguida, a juíza responsável decidirá se o réu será pronunciado, o que significa ser submetido a julgamento pelo júri popular, ou se será absolvido sumariamente. Se houver pronúncia, a defesa poderá recorrer.
Um Conselho de Justificação, formado por três coronéis, também analisa provas e ouve testemunhas para avaliar se o tenente-coronel tem condições morais de permanecer na corporação. Ao fim, o caso será encaminhado à Justiça Militar, que poderá determinar a perda do posto e da patente.
Morte e investigação
Gisele foi atingida por um tiro na cabeça em 18 de fevereiro deste ano, no apartamento onde morava com o marido, na região do Brás, Zona Leste de São Paulo. Ela foi levada em estado grave ao Hospital das Clínicas, mas morreu. Desde o início, Geraldo sustentou que a mulher havia atirado contra si enquanto ele tomava banho.
A investigação apontou inconsistências nessa versão, incluindo a posição do corpo, a forma como a arma estava apoiada na mão da vítima, vestígios de sangue, lesões no pescoço e resultados de uma reprodução simulada.
Em março, a Polícia Civil concluiu que o tenente-coronel matou a esposa e modificou a cena para simular um suicídio. A Justiça decretou a prisão preventiva e aceitou a denúncia do Ministério Público, tornando-o réu por feminicídio e fraude processual.
As apurações também apontaram uma crise no relacionamento e a intenção de Gisele de se separar. Conforme a acusação, o oficial não aceitava o fim do casamento. Mensagens encontradas nos celulares do casal mostraram cobranças e comportamentos de controle. Em depoimento, ele disse que as expressões usadas nas mensagens faziam parte de uma brincadeira do casal.



