CURITIBA — A Polícia Federal encontrou, na 13ª Vara Federal de Curitiba, documentos e mídias que relacionam o ex-juiz Sergio Moro a escutas de autoridades com foro privilegiado. O material foi localizado em uma busca autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), e realizada no último dia 3.
As evidências incluem um despacho de Moro, de julho de 2005, no qual ele determina ao empresário e ex-deputado Tony Garcia que grave novamente Heinz Herwig, presidente do Tribunal de Contas do Estado do Paraná na época. No documento, Moro afirma que as gravações anteriores eram insatisfatórias para os objetivos da investigação.
Os documentos e as transcrições estavam guardados em uma gaveta da vara. Segundo a PF, também foram encontrados registros de monitoramento de desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. As autoridades citadas só poderiam ser investigadas com autorização do Superior Tribunal de Justiça, o que não ocorreu.
Em um dos despachos apreendidos, Moro menciona a realização de reuniões com escuta ambiental envolvendo Roberto Bertholdo, Michel Saliba e novamente Heinz. A investigação sobre Herwig também aparece no acordo de delação firmado por Garcia.
Mídias e acusações de Tony Garcia
A PF encontrou ainda mídias e relatórios que mostram desembargadores em situações íntimas. Um dos arquivos traz o nome de um magistrado seguido da frase: “Com medo de que as fitas das festas vazassem, contou para a mulher que foi filmado”.
A busca foi autorizada por Toffoli em 6 de outubro, com a determinação de examinar processos, documentos, mídias e objetos relacionados às investigações. A medida teve como objetivo localizar materiais solicitados pelo STF e que, segundo a decisão, não haviam sido entregues pela Justiça Federal do Paraná.
Garcia afirma que atuou como agente infiltrado de Moro desde o caso do Banestado. Ele também relatou que recebia ordens do então juiz e era levado a comparecer ao Ministério Público Federal sem a presença do advogado. Diálogos apreendidos na operação spoofing indicariam o uso de Garcia em flagrantes preparados e escutas ambientais.
O ex-coordenador da operação lava jato no Paraná, Deltan Dallagnol, teria chamado o empresário de “brinquedo novo”. Garcia afirmou ainda que procuradores o usavam para obter informações sobre operadores da Petrobras, José Dirceu e Eduardo Cunha.
Manifestação de Moro e decisão sobre Youssef
Em nota, Sergio Moro classificou a investigação no STF como baseada em “relatos fantasiosos do criminoso condenado Tony Garcia”.
O STF já havia concluído, no ano passado, que Moro foi um dos responsáveis por uma escuta encontrada na cela de Alberto Youssef, na superintendência da Polícia Federal. As gravações foram feitas em 2014, antes do acordo de delação do doleiro.
De acordo com a decisão de Toffoli, Moro aceitou a versão de que os aparelhos estavam desligados e isso impediu, naquele momento, o avanço dos questionamentos da defesa. Posteriormente, foi comprovado que o equipamento funcionava e captava áudios.
Em julho deste ano, Toffoli anulou os atos da operação lava jato contra Youssef, incluindo condenações e medidas da fase de investigação. Na decisão, o ministro afirmou que a atuação de Moro e de integrantes da força-tarefa pressionou Youssef a firmar uma colaboração premiada. “Ficou delimitada, com precisão, a conduta irregular do ex-juiz federal Sérgio Moro e seus congêneres da extinta FT-LJ”, escreveu Toffoli.



