Um vídeo criado com inteligência artificial usa a imagem e a voz atribuídas a um padre para contar uma falsa história de acidente, amputação das duas pernas e pedido de doações para a compra de próteses. A publicação foi feita no Facebook em 19 de agosto, alcançou 337 mil visualizações e recebeu 665 comentários.
O conteúdo foi divulgado pela página “Caminhada Curta”, com o título “Ande com Padre Mateus”. Na legenda, a página afirma que o personagem é padre há oito anos, perdeu as duas pernas oito meses antes e sofreu o acidente quando seguia para uma missa. A gravação mostra um homem vestido de padre, em uma cadeira de rodas, dizendo ter 38 anos.
O personagem afirma que precisa das próteses para voltar a caminhar até o altar. Ele também diz que teria apenas quatro meses para conseguir os equipamentos, porque já estaria no oitavo mês após a amputação.
A narrativa menciona Lourdes, apresentada como funcionária responsável pela limpeza de uma igreja há 30 anos, e Enzo, um menino batizado pelo suposto padre que o empurraria até o altar. A história levou internautas a demonstrar apoio e intenção de doar. Também houve alertas sobre a possibilidade de golpe.
Indícios de manipulação
O jornalista e teólogo Felipe Zangari recebeu o vídeo do pai em 20 de agosto. Como tem formação em teologia e experiência ligada à Igreja Católica, ele foi procurado para tentar identificar o suposto padre.
Zangari afirmou que achou estranho o vídeo não informar a diocese, a paróquia ou a cidade onde o padre atuaria. Ele também percebeu falta de sincronia entre a fala e os movimentos da boca. Ao ouvir a gravação novamente, identificou a voz como sendo a do Padre Paulo Ricardo, reproduzida, segundo ele, por inteligência artificial.
O jornalista procurou registros de um padre chamado Mateus ou Matheus que tivesse sofrido um acidente e perdido as duas pernas, mas disse não ter encontrado informações sobre o caso. A única referência localizada foi o site “andecom padre mateus.com”, que apresentava chaves Pix para doação.
Pix direcionava a empresa
Zangari simulou uma contribuição usando o código de pagamento disponível na página. O aplicativo bancário indicou como beneficiária uma empresa de Florianópolis. Depois da verificação, ele avisou o pai para não enviar dinheiro e pediu que a mulher interessada em ajudar também fosse informada.
Cerca de três dias depois, o jornalista levou o caso ao podcast “Sagrada Polêmica”, do qual participa com outros três jornalistas. A partir dali, os participantes passaram a alertar outras pessoas sobre a história.
A Meta afirmou que atividades destinadas a enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas em suas plataformas e disse estar aprimorando a tecnologia para combater atividades suspeitas.



