SANTARÉM — O Tapajós de Fato desistiu de cobrir as eleições de 2026 após uma sequência de ameaças e episódios de violência contra integrantes da equipe. O site independente, criado em 2020, havia passado parte deste ano planejando pautas e buscando financiamento para acompanhar a disputa no oeste do Pará.
A decisão impede que a redação investigue vínculos de candidatos com o garimpo, o agronegócio e grandes obras, além de discutir problemas e possíveis soluções para a região. Para o coordenador de projetos João Paulo Serra, de 27 anos, a interrupção afeta a sociedade. “Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, afirmou.
Ameaças e mudança de rotina
Durante a eleição presidencial de 2022, pneus da caminhonete usada pela equipe foram rasgados. Dias depois, uma cabeça de gato foi deixada no terreno onde o veículo ficava, acompanhada de um bilhete com o nome de Marcos Wesley Pedroso, fundador do site, e uma ameaça de morte.
Em outro caso, uma comunicadora foi atacada com uma faca e conseguiu escapar dos golpes. O agressor não foi identificado, e a equipe não conseguiu determinar se o episódio estava ligado ao trabalho jornalístico. Os casos foram levados à Polícia Civil e ao Ministério Público, mas não há informação conclusiva sobre os responsáveis ou sobre uma conexão entre os ataques.
As intimidações aumentaram em 2021, quando o site publicou reportagens sobre a venda ilegal de terras do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande. Vieram ameaças por telefone e mensagens. Em 2022, jornalistas também relataram roubos, perseguições e a presença de carros desconhecidos perto da sede. Parte da equipe passou períodos em hotéis por não se sentir segura em casa.
Marcos deixou Santarém depois das ameaças e recebeu diagnóstico de depressão. Ele trocou de endereço seis vezes nos últimos três anos. João Paulo fechou seu perfil pessoal e deixou de visitar a mãe por medo de expor o local onde ela morava. “O principal dano é a forma como a gente vive com a nossa família”, disse.
Em 2024, a insegurança já havia levado o site a suspender a cobertura das eleições municipais. Para 2026, a equipe decidiu recuar novamente. O grupo, que tinha mais de 20 pessoas em 2022, hoje conta com sete integrantes. Repórteres reduziram aparições públicas e fecharam perfis pessoais.
Jornalismo voltado às comunidades
A ideia de criar o Tapajós de Fato surgiu em 2019, durante um encontro de comunicadores rurais. Marcos, que atuava na comunicação do sindicato rural de Santarém, criou as redes sociais do veículo com outra jornalista em julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Depois, os dois lançaram o site.
A redação passou a tratar de negacionismo, falta de oxigênio no Baixo Amazonas, conflitos fundiários, mineração, soja, mudanças climáticas e direitos dos povos tradicionais. Em 2022, mesmo sob ameaças, acompanhou candidatos progressistas do oeste do Pará, debates sobre garimpo e desmatamento, compromissos com a agricultura familiar e atos bolsonaristas diante de uma unidade do Exército.
O veículo também produziu reportagens, podcasts e a campanha “Não Abra Mão da Sua Terra” sobre o Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande. A área fica entre os rios Amazonas e Arapiuns e é uma terra pública de uso coletivo, pressionada por disputas fundiárias e pela extração ilegal de madeira e minérios.
Uma pesquisa acompanhada pelas pesquisadoras Maria Cleidejane Esperidião e Thayane Guimarães, coordenadora de redes da InfoAmazonia, analisou o trabalho da equipe em junho de 2024. O estudo destacou a chamada escuta profunda, método em que repórteres permanecem por dias nas comunidades e transformam relatos sobre clima e produção em cartilhas. Em locais sem internet, áudios eram levados de barco em pen drives para reprodução em alto-falantes.
O Tapajós de Fato também ajudou o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns a estruturar um departamento de comunicação e apoiou a criação de um núcleo de um movimento quilombola.
Novos episódios
Em 2025, patas de cachorro foram encontradas diante da casa de Marcos. Em junho deste ano, o carro dele foi destruído durante a madrugada. Imagens mostraram dois ciclistas circulando pelo quarteirão antes de um automóvel atingir um veículo estacionado e fugir. Marcos suspeita que a colisão tenha sido uma isca para atraí-lo para fora de casa, mas não há confirmação sobre a motivação.
O jornalista relaciona o episódio a denúncias sobre o uso indevido de agrotóxicos. O site publicou casos de contaminação envolvendo alunos e professores. Em maio, o veículo e outras 19 organizações entregaram à deputada Maria do Carmo, do PT, uma proposta para limitar pulverizações perto de comunidades, escolas e rios.
A Ferrogrão também esteve entre os temas que geraram pressão sobre João Paulo. A ferrovia prevista tem 933 quilômetros e deve ligar Sinop, em Mato Grosso, a Miritituba, distrito portuário de Itaituba, no Pará. Após um vídeo com entrevistas de moradores ser adulterado por perfis de direita usando inteligência artificial, o jornalista teve sua conta pessoal exposta e passou a receber ataques.
Sem a cobertura eleitoral do Tapajós de Fato, João Paulo afirma que outros grupos ocuparão o espaço deixado pela redação. Para ele, a impossibilidade de acompanhar as eleições por segurança representa uma falha do Estado em seus diferentes níveis.



