Treze pessoas cujo indiciamento foi recomendado no relatório final da CPI da Covid são candidatas nas eleições deste ano. Elas disputam cargos que vão da Presidência da República a assembleias estaduais, embora nenhuma tenha sido julgada antes da votação pelos crimes apontados durante a pandemia.
Quem está na disputa
O senador Flávio Bolsonaro (PL) concorre à Presidência. Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), todos filiados ao PL, tentam uma vaga no Senado.
Para a Câmara dos Deputados, concorrem Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP) e Osmar Terra (RS), pelo PL, além de Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR), pelo PP. Mayra Pinheiro (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM) disputam cadeiras em assembleias estaduais.
O relatório da comissão no Senado reuniu 81 nomes com pedido de indiciamento. A CPI investigou a atuação de integrantes do governo federal e de outras autoridades durante a crise sanitária, que havia causado mais de 450 mortes no país em maio de 2021.
Acusações apontadas pela comissão
Eduardo Pazuello, que comandou o Ministério da Saúde até março de 2021, foi associado pela CPI à falta de oxigênio em Manaus e à distribuição do chamado kit covid. Marcelo Queiroga o substituiu no ministério. Mayra Pinheiro permaneceu na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde e defendeu o tratamento precoce.
Wilson Lima era governador do Amazonas quando ocorreu o colapso no sistema de saúde de Manaus, com Marcellus Campêlo como secretário estadual de Saúde. Nise Yamaguchi e Osmar Terra foram identificados como defensores do tratamento precoce junto ao então presidente Jair Bolsonaro.
Onyx Lorenzoni ocupava o Ministério do Trabalho e da Previdência e administrava o auxílio emergencial. Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, foi investigado nas negociações da vacina Covaxin. A CPI apontou que as doses eram negociadas por 15 dólares, enquanto o valor estimado era de pouco mais de um dólar.
Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Bolsonaro não exerciam funções executivas na resposta à pandemia, mas, segundo a comissão, divulgaram críticas a medidas de isolamento e vacinação. Flávio Bolsonaro também foi investigado por sua atuação nas redes sociais.
A CPI recomendou indiciamentos por crimes como prevaricação, emprego irregular de verbas públicas, epidemia com resultado de morte, crimes contra a humanidade e formação de organização criminosa. Pazuello foi o nome associado ao maior número de possíveis crimes. Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi, Osmar Terra, Wilson Lima e Marcelo Queiroga também tiveram recomendado o indiciamento por epidemia com resultado de morte.
O relatório relacionou Pazuello, Lorenzoni e Mayra Pinheiro a possíveis crimes contra a humanidade pelo foco no tratamento precoce e pela distribuição do kit covid no Amazonas. No caso de Ricardo Barros, a suspeita de formação de organização criminosa e improbidade administrativa foi ligada às negociações da Covaxin.
Vacinas e mortes na pandemia
Pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, do Instituto Butantan e da London School estimaram que ao menos 127 mil óbitos poderiam ter sido evitados só em 2021 se não houvesse demora na compra de vacinas. O Brasil terminou a pandemia com mais de 700 mil mortos.
A CPI também afirmou que integrantes do governo promoveram aglomerações, desestimularam o uso de máscaras e o distanciamento social e defenderam tratamentos sem eficácia comprovada. No relatório, os senadores concluíram que “as normas [editadas pelo governo federal] apontam para uma estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática.”
Flávio Bolsonaro teve o indiciamento solicitado por, conforme a comissão, estimular pessoas a desrespeitarem medidas destinadas a conter a propagação da doença. Em outubro de 2021, ele rejeitou a acusação e afirmou: “Isso aqui é uma vingança.”
Investigação e resposta dos candidatos
Apesar do pedido da CPI, a Procuradoria-Geral da República solicitou o arquivamento das denúncias. Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal determinou a abertura de inquéritos policiais para investigar parte dos nomes citados pela comissão. Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Eduardo Pazuello, Nise Yamaguchi, Marcelo Queiroga e Wilson Lima ficaram fora dos inquéritos mencionados.
Todos os candidatos foram procurados para responder às acusações e avaliar se elas poderiam influenciar a decisão dos eleitores. Ricardo Barros foi o único a responder. O deputado afirmou ter “absoluta tranquilidade” e disse que a Procuradoria-Geral da República não encontrou indícios mínimos de sua participação em crimes.
Os candidatos investigados não deverão ser julgados pela Justiça antes da eleição, marcada para 4 de outubro deste ano. A decisão sobre a ocupação dos cargos ficará com os eleitores.



