PARANÁ — Empresas ligadas à família do governador Ratinho Junior receberam R$ 24 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025, enquanto o apresentador Ratinho divulgava o cartão Credcesta. Outro contrato, com a Massa & Massa, envolveu R$ 1,68 milhão. Os pagamentos são apontados no contexto das declarações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre supostas propinas relacionadas à operação do cartão, mas não há prova pública de pagamento ilícito no Paraná.
Vorcaro afirmou, em propostas de delação recusadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, que doações eleitorais de R$ 5 milhões para Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, em 2022, teriam integrado uma negociação de propina. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, fez oficialmente os repasses: R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo e R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro.
O ex-banqueiro relacionou os valores à tentativa de manter o Credcesta no governo paulista. Gilberto Kassab negou as acusações e classificou o relato como “absolutamente fantasioso”. Tarcísio também negou relação com Vorcaro ou conhecimento de condutas externas à campanha. As declarações são uma versão de Vorcaro e não representam conclusão das autoridades.
Repasses a empresas da família Massa
Documentos da Receita Federal encaminhados à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado registram R$ 21 milhões para a Massa Intermediação de Marumbi e R$ 3 milhões para a Gralha Azul Empreendimentos e Participações. Os pagamentos ocorreram entre 2022 e 2025, no primeiro caso, e em 2022, no segundo.
A Massa Intermediação de Marumbi tinha como endereço informado um local onde não foi encontrada atividade empresarial. Essa circunstância não permite afirmar que a empresa tenha sido criada apenas para receber recursos, mas deixa em aberto a necessidade de esclarecer quais serviços foram prestados e qual era sua estrutura.
A família do apresentador informou que a maior parte dos valores estava ligada a contratos publicitários do Credcesta. A questão ainda não esclarecida é se os R$ 24 milhões remuneraram somente publicidade ou se tiveram alguma relação com a operação do cartão no Paraná.
A Massa & Massa recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master. O apresentador Ratinho, a mulher dele, o governador Ratinho Junior e dois irmãos do político aparecem como sócios. Os repasses foram feitos em quatro pagamentos de R$ 420 mil. O Grupo Massa confirmou os valores e disse que o contrato previa a utilização da imagem de Ratinho na campanha de divulgação do Credcesta.
Um relatório da Polícia Federal anexou documento que apontava uma das parcelas de R$ 420 mil como pendente. Não há confirmação de que esse valor esteja incluído nos R$ 24 milhões. Por isso, os montantes não devem ser somados antes da análise dos registros e contratos.
Credenciamento no Paraná
A PKL One Participações, responsável pelo Credcesta, abriu uma filial no Paraná em 19 de agosto de 2021. Cinco dias depois, a Secretaria de Estado da Administração e da Previdência habilitou a empresa, conforme documentos apresentados por Homero Marchese. A Resolução SEAP nº 12.047 teria formalizado o credenciamento.
Em 28 de outubro de 2021, Ratinho Junior editou o Decreto nº 9.220, que regulamentou as consignações dos servidores estaduais e reservou uma margem de 10% para cartões de benefício. O texto não cita a PKL One, o Credcesta ou o Banco Master e não concede exclusividade a uma empresa.
A PKL One teria obtido o credenciamento em maio de 2022, durante a gestão anterior, conforme nota do governo paulista. A administração estadual afirmou que a habilitação não era um contrato com o Estado nem envolvia repasse de dinheiro público.
A sequência dos fatos, por si só, não comprova favorecimento ou propina. Também não há informação pública de que a Polícia Federal investigue Ratinho Junior nesse caso.
Respostas e negativas
O Grupo Massa afirmou que a contratação teve caráter “exclusivamente comercial e publicitário”. Também declarou que o Banco Master operava regularmente quando o acordo foi assinado. O contrato foi encerrado posteriormente por distrato, atribuído a atrasos e desencontros entre os serviços e os pagamentos.
O Governo do Paraná informou que não comentaria o caso. Tarcísio declarou que sua campanha recebeu recursos de mais de 600 doadores, cumpriu a legislação eleitoral e teve as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. Kassab negou ter tratado de doações com Augusto Lima ou Vorcaro, além de negar discussão sobre o Credcesta ou recebimento de dinheiro em espécie.
No fim de agosto, Vorcaro pediu para depor ao gabinete do ministro André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal. A proposta de delação foi recusada pela terceira vez, sob o argumento de que não apresentava fatos novos. Mesmo assim, ele depôs em 27 de agosto, na penitenciária da Papudinha, em oitiva conduzida por João Azambuja, juiz auxiliar do gabinete de Mendonça. Os advogados Daniel Bialski e Engels Muniz acompanharam o ato.
As acusações ainda dependem de comprovação. No Paraná, os contratos, o credenciamento e a regulamentação dos cartões de benefício formam a cronologia que precisa ser esclarecida pelas partes envolvidas.



