BRASÍLIA — Registros analisados pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, fez ao menos cinco viagens internacionais no primeiro semestre de 2025 com o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de participação em fraudes e desvios de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A relação entre os dois também envolve imóveis, jatinhos particulares e processos judiciais.
Os dados foram encontrados no celular e na caixa de e-mails de Tomaz, apreendidos durante mandados de busca e apreensão realizados em seu escritório, em Brasília, no mês passado. Entre os arquivos estavam fotografias, bilhetes aéreos, reservas e contratos de aluguel de veículos.
Viagens internacionais
Uma das viagens ocorreu em março de 2025 e durou uma semana, com destino à África do Sul. O senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado no caso do INSS, participou do roteiro, que incluiu um safári. Em uma das imagens, Flávio, Weverton e Tomaz aparecem com crianças na savana usando camisetas com a inscrição “Big Five”.
Em abril de 2025, Flávio e Tomaz viajaram juntos para Portugal e retornaram no mesmo voo poucos dias depois. Em maio, os dois voltaram à Europa com suas famílias, passando por Portugal e pela França. E-mails indicam que uma agência contratada pelo escritório de Tomaz tratou do aluguel de veículos para traslados em Lisboa e Nice.
Os registros também apontam deslocamentos para os Estados Unidos. Em janeiro de 2025, Flávio, sua esposa e suas duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília ao lado de Tomaz e familiares. O grupo usou um jatinho particular da Prime You, empresa que teve Daniel Vorcaro como sócio até setembro de 2025.
No mesmo mês, Flávio e Tomaz passaram parte de um fim de semana no Hard Rock Hotel e Casino, na região de Miami. Em maio de 2025, o senador e Fernanda Bolsonaro voltaram à Flórida com o advogado em uma aeronave emprestada por um empresário representado juridicamente por Tomaz.
Investigação sobre o INSS
Em relatório, a Polícia Federal descreveu Tomaz como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” para dar suporte a pessoas investigadas no esquema. Segundo o documento, a estrutura reunia empresas, imóveis, aeronaves, pilotos e operadores financeiros para lavar ou ocultar valores desviados de aposentadorias.
A representação policial cita ainda o repasse de R$ 11 milhões de empresas ligadas ao advogado para a esposa de Weverton Rocha, apontado pela PF como liderança política do grupo.
A convivência entre Flávio e Tomaz inclui o uso de um apartamento na Vila Nova Conceição, na zona sul de São Paulo. No mês passado, o advogado cedeu o imóvel ao senador durante compromissos políticos. Adversários questionaram a cessão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando que ela deveria ter sido registrada como doação de campanha.
Antes de pertencer a Tomaz, o apartamento estava em nome de Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela PF como principal operador financeiro de Vorcaro. O advogado também teria cedido ao senador outros espaços de convivência, como uma casa na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), e o Rancho Tomaz, em Planaltina (DF).
Em julho, levantamentos mostraram que Flávio e Tomaz atuavam juntos em processos judiciais. Entre os casos está uma disputa empresarial no Superior Tribunal de Justiça (STJ) envolvendo a execução de R$ 159 milhões.
Flávio afirmou manter uma “relação de amizade” “legítima” com Tomaz e disse que qualquer tentativa de apontar irregularidade com base nessa proximidade não teria fundamento. O senador não respondeu se teve despesas pagas pelo advogado.
Tomaz declarou que as viagens são de caráter estritamente privado, custeadas com recursos próprios, e resultado de uma relação de amizade pessoal de longa data. Também afirmou que jamais manteve relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. Weverton Rocha disse que sua ligação com o advogado é de compadrio e amizade antiga, sem uso de verbas públicas.



