A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) acompanha discursos e movimentos que possam abrir espaço para uma interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Relatórios internos da agência classificam como crítico o risco de influência americana no processo eleitoral e identificam setores da extrema-direita no Brasil como possíveis facilitadores de ações contra a soberania nacional.
O monitoramento inclui manifestações capazes de causar impacto nas instituições e conquistar apoio popular ou político para uma intervenção estrangeira. A análise também pode alcançar políticos com mandato e influenciadores digitais com capacidade de mobilização.
Relação com o projeto de Trump
Os documentos começaram a ser produzidos em novembro de 2025, quando o governo de Donald Trump ampliou seu plano de hegemonia na América Latina. O embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Cabrera, afirmou em vídeo publicado pelo Departamento de Estado em 13 de agosto de 2026: “Agora, a América tem a oportunidade de estabelecer uma nova ordem”.
A formulação é associada à retomada da Doutrina Monroe, que tratava o continente americano como área de influência dos Estados Unidos. A avaliação da Abin considera que parte da extrema-direita brasileira mantém alinhamento ideológico com a gestão de Trump e pode colaborar com interesses americanos no país.
Em relatório entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Polícia Federal (PF), a agência registrou que o governo dos Estados Unidos teria preferência pelo campo opositor e avaliou esse grupo como um possível facilitador de seus interesses. Uma fonte da Abin resumiu a análise dizendo: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A frase foi dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro.
Minerais e contatos diplomáticos
Fontes da Abin afirmaram que o interesse americano estaria ligado à extração de terras raras. Mais de 20% das reservas mundiais desse tipo de mineral estão no solo brasileiro. Um decreto assinado por Trump determinou medidas para acelerar a produção de minerais críticos e reduzir a dependência do governo chinês. O documento afirma que esses materiais são componentes de jatos, satélites, submarinos, bombas e sistemas de mísseis guiados.
A embaixada dos Estados Unidos no Brasil procurou Sóstenes Cavalcanti (RJ), líder do PL na Câmara dos Deputados, para receber Riley Bernes e Samuel Samson, enviados do Departamento de Estado. A missão, conforme os relatos, pretendia lançar dúvidas sobre as urnas eletrônicas. O Itamaraty negou os vistos aos dois representantes.
O Ministério das Relações Exteriores também não deu aval à indicação de Donald Trump para a embaixada americana no Brasil. O nome escolhido foi Daniel Perez, representante da Flórida, aprovado pelo Senado americano em 7 de agosto. Ele não pode assumir sem o agrément, aceitação formal do país que receberá o indicado, prevista na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961.
Perez é integrante do movimento Make America Great Again (MAGA) e do mesmo grupo político de Marco Rubio. A avaliação sobre sua atuação aponta que ele poderia ter papel relevante em iniciativas de interferência no Brasil, inclusive no auxílio à formulação de leis no Congresso Nacional.
Ações acompanhadas pela inteligência
As iniciativas para estimular apoio a uma interferência americana foram intensificadas em 2026. Em 16 de julho, Marco Rubio convocou 66 países a aderirem a um projeto contra o que classificou como “terrorismo de extrema esquerda”.
Em 22 de setembro, 14 países latino-americanos integrantes do “Escudo das Américas”, aliança criada por Trump, assinaram um acordo para impor sanções ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Entre as medidas previstas estão congelamento de bens e restrições à imigração e à emissão de vistos.



