SÃO PAULO — O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro usou, na primeira quinzena de agosto, um apartamento em São Paulo que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. O imóvel serviu como base para atividades de campanha do candidato na cidade.
O apartamento fica no edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, na zona sul paulistana. Durante a permanência no local, Flávio se reuniu com integrantes da equipe, gravou vídeos para o horário eleitoral, participou de podcasts e esteve em compromissos na região da Faria Lima.
Moradores relataram a presença de agentes da Polícia Legislativa à paisana, que fizeram varreduras nas áreas comuns e circularam pelo prédio. Uma funcionária de uma escola próxima também confirmou a movimentação de veículos usados pelos agentes.
Compra e venda do apartamento
Zettel comprou a unidade em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Em 10 de fevereiro deste ano, vendeu o imóvel por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz.
A diferença nominal foi de R$ 2 milhões, equivalente a aproximadamente 36% do valor pago na aquisição. A escritura foi registrada em 4 de março, na mesma data em que Zettel foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero. O registro ocorreu depois de o Supremo Tribunal Federal determinar o bloqueio dos bens dele.
O comitê de campanha de Flávio ficava na Avenida República do Líbano, a cerca de cinco minutos de carro do edifício. O candidato se deslocava entre os dois endereços e outros compromissos na região.
Moradores pediram ao síndico acesso às imagens das câmeras do condomínio para verificar a movimentação. Eles foram informados de que as gravações haviam sido apagadas acidentalmente. O síndico não respondeu aos questionamentos sobre a perda das imagens nem sobre eventual comunicação prévia da presença do candidato e dos policiais.
Willer Tomaz negou inicialmente que Flávio tivesse usado o apartamento. Depois, afirmou não conhecer Zettel nem Vorcaro e disse nunca ter mantido “relação pessoal, comercial ou societária” com os dois. A nota não mencionou Flávio. A assessoria do senador declarou que ele havia se hospedado apenas em hotéis da região e não respondeu sobre qual uso teria sido feito do imóvel.
Relações e investigações
Fabiano Zettel aparece nas investigações relacionadas ao Banco Master. Em relatório da Polícia Federal, investigadores afirmaram ter ficado “cabalmente constatado” que ele atuava como interposta pessoa, ou “laranja”, de Vorcaro. Mensagens apreendidas pela PF também registram tratativas financeiras envolvendo personagens políticos e negócios como o financiamento do filme Dark Horse e transações ligadas ao resort Tayayá.
Tomaz não é investigado no caso Master. O advogado aparece no inquérito sobre fraudes no INSS. A relação dele com Flávio inclui a consulta para assumir a defesa do senador no caso das chamadas rachadinhas, articulações ligadas a indicações para tribunais superiores e outros órgãos do Judiciário, além de viagens de lazer.
Interlocutores de Tomaz afirmaram que foi na casa do advogado que Flávio conheceu Kassio Nunes Marques. Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador, disse ter chegado ao cargo por indicação de Tomaz.
O advogado também é citado em negócios envolvendo imóveis em Angra dos Reis, município onde Flávio mantém atuação política. Uma casa pertencente a uma empresa de Tomaz foi usada na comemoração dos 12 anos da filha caçula do senador. O imóvel é registrado em nome da WT Administração de Imóveis e Bens, que tem outros investidores entre os participantes.
A proximidade entre Flávio e Tomaz também aparece em uma disputa judicial relacionada a outro imóvel em Angra. Flávio visitava a casa a partir de 2020 e foi arrolado como testemunha do advogado no processo. Em conversa relatada por Alencar Silveira Júnior, o senador respondeu sobre o caso: “Eu não tenho nada com isso.”




