SÃO PAULO — O ato de 7 de Setembro realizado na Avenida Paulista concentrou críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e pedidos para que o Senado avance contra ele. Embora a manifestação tenha exibido bandeiras dos Estados Unidos, referências a Donald Trump e cartazes favoráveis à intervenção estrangeira nas eleições, os principais discursos evitaram mencionar o presidente estadunidense.
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, não citou Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, nem mencionou a relação que mantinha com o empresário. Em seu discurso, afirmou que “Esse consórcio de Lula com Moraes vai acabar” e defendeu a indicação de ministros para o Supremo contrários ao aborto, às drogas e ao que chamou de ideologia de gênero nas escolas.
O candidato também comparou a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado a uma segunda facada, em referência ao atentado sofrido pelo pai durante a campanha de 2018. Sem apresentar provas, acusou adversários de planejarem interferir novamente nas eleições.
Críticas ao ministro e pressão sobre o Senado
As revelações sobre as relações de Moraes com Vorcaro foram usadas nos discursos para defender o afastamento ou o impeachment do ministro. A pauta também foi associada à formação de uma maioria de direita no Senado, responsável constitucionalmente por analisar eventuais pedidos de impeachment de integrantes do Supremo.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, adotou tom menos agressivo e perguntou se caberia aos apoiadores manter o silêncio ou reagir. Depois, defendeu uma atuação do Senado e a eleição de parlamentares de direita para a Casa.
Nikolas Ferreira pediu a saída de Moraes, afirmou que os bolsonaristas tirariam o que chamou de sorriso debochado do rosto do ministro e disse que o lugar dele seria a cadeia. O deputado também prometeu realizar um ato diante da casa de Davi Alcolumbre para pedir o impeachment de Moraes.
Silas Malafaia chamou Moraes de ditador da toga e pediu que o presidente do STF afastasse o ministro. O pastor disse que a mobilização não tinha como objetivo desmoralizar a Corte, mas depois afirmou que era preciso atacar o magistrado. Cartazes em defesa de André Mendonça foram vistos na avenida, e o nome do ministro foi aclamado pelo público.
Malafaia também citou o Banco Master e as conversas reveladas entre Vorcaro e Moraes. O texto da manifestação ignorou, porém, as relações de aliados presentes no ato com o empresário. Flávio havia chamado Vorcaro de irmãozão enquanto pedia dinheiro ao banqueiro. Nikolas trocou mensagens com o empresário e pediu ajuda para resolver uma questão sobre um ativo minerário de um conhecido. Ele nega ter recebido dinheiro de Vorcaro.
Tarcísio recebeu, em 2022, R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e maior doador individual de sua candidatura ao governo de São Paulo. O governador nega favorecimento e diz nunca ter tido contato com Vorcaro ou Zettel.
Símbolos dos Estados Unidos
A avenida foi ocupada por bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, além das brasileiras. Havia um boneco gigante de Trump, placas em inglês, bonés com as frases “Trump 2028” e “Make America Great Again” e um manifestante vestido como Elvis Presley.
Cartazes pediam que Trump acompanhasse as eleições brasileiras e defendiam uma intervenção do presidente estadunidense no pleito. A grande bandeira dos Estados Unidos exibida no ato bolsonarista de 7 de Setembro de 2025 não apareceu nesta edição.
A mudança ocorreu em meio à discussão sobre ingerência externa na eleição. Pesquisa Datafolha divulgada em agosto indicou que 50% dos brasileiros viam possibilidade de interferência estrangeira nas eleições. Para 32% do total, isso seria um problema; 18% não consideravam a situação problemática.
Flávio havia agradecido, em julho de 2025, a Trump pela tarifa de 50% anunciada contra produtos brasileiros e compartilhado uma mensagem de Eduardo Bolsonaro com o mesmo tom. No fim de agosto deste ano, durante sabatina ao Jornal Nacional, afirmou que Eduardo havia errado ao agradecer pela medida.
Em julho, o senador também enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos um pedido para que uma nova tarifa de 25% contra o Brasil não fosse aplicada antes das eleições. Segundo ele, a medida poderia ser interpretada como tentativa de influenciar a disputa.
Soberania no desfile em Brasília
Em Brasília, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva colocou a soberania nacional no centro das comemorações oficiais. Em pronunciamento na véspera, Lula afirmou que o Brasil não deveria baixar a cabeça diante de potências estrangeiras e declarou que o país não seria colônia de ninguém.
No desfile da Esplanada dos Ministérios, o lema foi “Soberania: a força que une o Brasil”. A cerimônia reuniu cerca de 4 mil civis e militares e incluiu equipamentos militares, máquinas da agricultura familiar, estoques públicos de alimentos, vacinação, educação, proteção ambiental e defesa das riquezas naturais.
O desfile também destacou o combate à violência contra meninas e mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027. Parte do público pediu o fim da escala 6×1, em apoio a Lula e contra a anistia aos envolvidos nos atos golpistas. A cerimônia foi acompanhada por Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Edson Fachin.



