Um grupo de 309 candidatos de diferentes partidos está ligado a 4.896 requerimentos protocolados na Agência Nacional de Mineração (ANM). Os registros aparecem nos CPFs dos próprios políticos ou em empresas das quais são sócios ou representantes legais. Entre os envolvidos estão um candidato à Presidência da República, 12 ao Senado e oito a governos estaduais.
A maior parte dos pedidos está associada às eleições legislativas. Candidatos a deputado estadual respondem por 3.325 registros, enquanto concorrentes à Câmara dos Deputados somam 847.
A modalidade mais frequente é a Autorização de Pesquisa, com 2.933 requerimentos. O procedimento permite realizar estudos de campo e laboratório para definir a existência de uma jazida e a viabilidade econômica da exploração. O Alvará de Pesquisa tem duração de um a três anos e pode abranger áreas de 50 a 2 mil hectares. Na Amazônia Legal, o limite pode chegar a 10 mil hectares.
Também foram identificados 669 pedidos de Registro de Licença, usados para extração de areia, cascalho, saibro e calcário destinado à correção do solo. Outros 439 requerimentos são de Cessão Parcial, que permite transferir parte dos direitos de exploração a terceiros. Há ainda 245 pedidos de Permissão de Lavra Garimpeira, voltados a minerais como ouro, diamante e cassiterita, em áreas de até 50 hectares.
Areia, ouro e terras raras
Areia e cascalho aparecem, sozinhos ou associados a outras substâncias, em mais de 2,4 mil processos. O ouro é citado em 1.118 requerimentos. A apresentação de pedidos à ANM é legal e, por si só, não indica irregularidade. O possível conflito está na participação de políticos em decisões públicas que possam afetar interesses comerciais próprios.
A disputa envolve também minerais críticos e estratégicos, usados em setores como defesa, inovação e transição energética. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. Em fevereiro, a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional liberou um financiamento de 565 milhões de dólares para a mineradora Serra Verde, em Goiás. O aporte garantiu aos Estados Unidos participação acionária na empresa, principal produtora brasileira de terras raras.
Por partido, os candidatos do Mobiliza somam 1.306 pedidos, seguidos por Republicanos, com 1.246, e PL, com 547. Também há nomes de MDB, União Brasil, Novo, PSD, PSDB, PT e PSB.
O maior volume individual é atribuído a Frederico Gonçalves Vidigal, candidato a deputado estadual por Goiás, conhecido como Fred Vidigal. Ele aparece ligado a 1.292 requerimentos, registrados principalmente em seu CPF e, em outros 30 casos, na empresa F. G. Vidigal & Cia Ltda. Os processos abrangem areia, cascalho e ouro.
Vidigal afirmou que atuou como responsável técnico, procurador ou prestador de serviços para clientes do setor mineral. “A presença do meu CPF associada a esses processos não pode ser automaticamente interpretada como titularidade das áreas, propriedade dos direitos minerários ou interesse econômico pessoal”, declarou. Sobre a empresa, disse que ela atua há mais de 20 anos na extração de areia e cascalho para a subsistência de seu pai.
Goiás concentra mais processos
Goiás lidera entre os estados, com 1.687 processos ligados a candidatos. A areia aparece em primeiro lugar, seguida pelo ouro, com 516 pedidos.
Luiz do Carmo, candidato a vice-governador pelo PSD, tem 112 processos protocolados na ANM entre 1975 e 2024. Quarenta continuam ativos, sendo 15 voltados ao ouro e 22 ao calcário. Ele declarou patrimônio de R$ 10,4 milhões à Justiça Eleitoral neste ano.
O candidato a governador Wilder Morais, do PL, soma 24 requerimentos apresentados entre 1976 e 2021, dos quais 17 permanecem ativos. O ouro aparece em 10 processos, distribuídos por áreas de Goiás e do Pará. A candidata a vice-governadora Ana Paula Rezende está ligada a 296 requerimentos, todos relacionados a duas empresas. Uma delas mantém 27 pedidos ativos para exploração principalmente de ouro em Goiás.
Outros candidatos
Pablo Marçal, candidato à Presidência pelo PRTB, protocolou dois pedidos de Autorização de Pesquisa para ouro em Currais e Baixa Grande do Ribeiro, no Piauí. As áreas somam mais de 3.900 hectares. Os pedidos foram publicados no Diário Oficial da União em 11 de março de 2026, com autorização de exploração por três anos.
O Serviço Geológico do Brasil informou que as concentrações de ouro em Currais eram “insignificantes” e incompatíveis com uma jazida. Luis Rodrigues Filho, que havia divulgado a descoberta, contestou a avaliação e apresentou documentos apontando teor de 0,94 g/t, além de potenciais de terras raras.
Pelo menos 105 candidatos com requerimentos na ANM exerceram mandato público nos últimos cinco anos. Entre eles estão sete ex-senadores e 22 ex-deputados federais.
O senador Plínio Valério, do PSDB do Amazonas, tem cinco pedidos de Autorização de Pesquisa para ouro em São Gabriel da Cachoeira. Já Antonio Leocadio dos Santos, o Antonio Doido, candidato a deputado federal pelo MDB do Pará, mantém três requerimentos ativos para areia e cascalho e outros 16 registros negados ou expirados.
Pedidos de pesquisa para lítio estão ligados a Felipe Pedri, Reginaldo Ferreira e Ivanilson Oliveira. Requerimentos para terras raras aparecem associados a Félix de Almeida Mendonça Júnior, Antonio Nicolau Cerqueira de Souza, Marcelo Mota de Macedo e Simone Andrade Queiroz. Mendonça Júnior afirmou que seu processo foi apresentado em 2013, perdeu a validade em 2017 e está inativo.



