A Justiça determinou restrições à atuação da Cedro Mineração Mariana em duas fazendas de Mariana após uma disputa com a Rio Abaeté Minerais. A empresa afirma ter alvará de pesquisa mineral na área e questiona um decreto publicado em 6 de fevereiro pelo então governador de Minas Gerais, Romeu Zema.
A liminar foi concedida em 9 de julho deste ano e prevê multa de R$ 50 mil por dia em caso de descumprimento. O juiz determinou que o governo de Minas e a Cedro não impeçam, limitem ou atrapalhem o uso do alvará de pesquisa nas áreas discutidas. Entre as condutas citadas estão entrar no terreno, instalar estruturas, desmatar, abrir acessos, registrar restrições em cartório e limitar a circulação. A Agência Nacional de Mineração (ANM) deverá ser notificada.
Disputa sobre a área
O decreto autoriza o uso das fazendas pela Cedro para atividades minerárias e afirma que a medida atende à expansão das atividades da empresa. A ação apresentada pela Rio Abaeté sustenta que a região alcança ou tangencia outros 14 títulos minerários submetidos ao regime federal da ANM.
Segundo o processo, a Cedro tem área de exploração estimada em 47 hectares em Mariana, enquanto o decreto alcança uma área próxima de 300 hectares. A Rio Abaeté afirma que a ampliação foi respaldada por uma justificativa de disposição de detritos, apoio operacional ou expansão, mas que existe sobreposição com direitos minerários.
Servidores da gerência regional da ANM em Minas Gerais aprovaram, em maio, pedidos da Cedro para avançar sobre a região. Nos laudos, porém, registraram que o uso efetivo dependeria de acordo amigável ou judicial com os proprietários do solo e os titulares dos direitos minerários. A Rio Abaeté diz que essa condição não foi cumprida.
A mineradora pediu à ouvidoria da ANM, em Brasília, a investigação de dois servidores. O Ministério Público Federal também solicitou, em junho, explicações à agência e apurações sobre possível ingerência do governo de Minas em direitos minerários da União.
A Cedro recorreu contra a liminar e pediu segredo de Justiça. Os dois pedidos foram negados em 13 de agosto. Em nota, a empresa afirmou que o decreto está de acordo com o posicionamento da ANM, que também teria concedido a servidão minerária na área, e que todos os procedimentos legais, regulatórios e ambientais foram seguidos.
Relações empresariais
A Cedro Mineração Mariana integra o grupo Cedro, fundado por Lucas Prado Kallas. Em 2024, empresas ligadas ao empresário repassaram mais de R$ 5 milhões ao Instituto Iter, ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. No início deste ano, o grupo também contratou o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes.
Kallas aparece ainda em mensagens atribuídas ao grupo chamado A Turma, que teria atuado para proteger Daniel Vorcaro de investigações. Em 2024, investimentos de Kallas e de Vorcaro foram direcionados à farmacêutica Biomm. Parte das ações estava com o Fundo Cartago, ligado ao Banco Master. Em dezembro de 2025, o fundo alcançou 25,9% de participação na empresa.
A Cedro vendeu sua participação na Biomm em abril deste ano. Três meses depois, Kallas deixou a presidência do conselho da Cedro Participações, mas permaneceu como acionista majoritário do grupo, cuja receita anual é de R$ 2,5 bilhões.
A empresa afirmou que Kallas não participou das negociações com o Instituto Iter, não discutiu valores e não assinou o instrumento. Também negou que ele tenha sido sócio de Vorcaro, argumentando que a compra de ações no mercado secundário não configura sociedade comercial.
Kallas foi indiciado pela Polícia Federal por extração irregular de minério na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A Operação Parcours apura atividades da Empresa de Mineração Pau Branco, ligada ao empresário. A PF estimou prejuízo de R$ 832 milhões e apontou que cerca de R$ 11 milhões deixaram de ser arrecadados em compensação financeira pela exploração mineral.
Kallas classificou sua inclusão no inquérito como “completamente descabida”. A PF também investigou dois servidores da ANM em Minas Gerais, que foram exonerados. A campanha de Zema e o governo de Minas não responderam aos pedidos de posicionamento sobre o decreto. A ANM também não respondeu, e a Rio Abaeté não foi localizada.



