A alta da bolsa americana não pode ser avaliada apenas pela comparação entre o múltiplo atual e sua média histórica. Os dados recentes de lucros, margens e atividade econômica mostram um mercado negociado a níveis elevados, mas apoiado por resultados empresariais e por uma economia ainda em expansão.
O S&P 500, índice formado pelas 500 maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos, acumulou alta de pouco mais de 10% neste ano. No mesmo período, os lucros das empresas que compõem o índice avançaram mais de 20%. A diferença indica que a valorização não ocorreu somente por euforia: em alguns momentos, o mercado ficou atrás do crescimento dos resultados.
Na safra de resultados do segundo trimestre nos EUA, 88% das empresas do índice superaram as expectativas de receita. A receita cresceu, em média, cerca de 15% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Nos lucros, mais de 70% das companhias entregaram números acima do esperado, com crescimento superior a 30%, já descontados os resultados não recorrentes de Google e Amazon.
As empresas também passaram a indicar um cenário mais favorável para os próximos meses. Pelo menos 15% das companhias do S&P 500 divulgaram projeções mais elevadas para o futuro. O consenso atual prevê alguns trimestres seguidos de crescimento dos lucros na casa de 20%.
Atividade econômica segue em expansão
Os indicadores de atividade também não confirmam a ideia de que a bolsa subiu enquanto a economia ficou para trás. Os últimos Índices de Gerentes de Compras (PMIs) de agosto apontaram expansão da atividade nos Estados Unidos.
O ISM de serviços avançou pelo 26º mês consecutivo de expansão. Os PMIs da S&P Global chegaram ao maior nível em mais de quatro anos. O quadro descrito combina crescimento econômico, serviços liderando, indústria ainda positiva, emprego mais cauteloso e custos persistentes.
Usamah Bhatti, da S&P Global Market Intelligence, afirmou que o crescimento da atividade no setor privado acelerou em agosto. Segundo ele, os dados apontavam para um Produto Interno Bruto (PIB) anualizado de 3,0% no terceiro trimestre, acima dos 1,5% do trimestre anterior, além de uma aceleração no emprego.
Esse cenário não elimina os riscos. Os empregos seguem seletivos e os preços continuam pressionados, mas os dados indicam expansão, e não uma economia em desacordo com o desempenho da bolsa.
Diferenças em relação à bolha das empresas de internet
A comparação com a bolha das empresas de internet dos anos 2000 é associada à concentração atual do crescimento em tecnologia e, especialmente, em inteligência artificial. Há, porém, diferenças nos fundamentos das companhias.
No fim dos anos 1990, muitas empresas tinham receitas pequenas, não registravam lucros e eram negociadas a múltiplos baseados em expectativas de crescimento. No ciclo atual de inteligência artificial, há empresas com lucros, margens, retorno e geração de caixa.
Isso não significa que todo investimento em inteligência artificial dará retorno aos acionistas ou será rentável. A avaliação apresentada é que o setor passa por um ciclo de produtividade e investimentos capaz de produzir vencedores e perdedores, mas com resultados concretos já presentes.
Margens e composição do índice
A safra recente mostrou empresas do S&P 500 com margem de lucro em nível recorde. Cerca de 90% dos setores do índice ampliaram suas margens no trimestre, o que reduz a força do argumento de que apenas algumas ações sustentam todo o mercado.
O retorno sobre o patrimônio líquido, conhecido pela sigla ROE, também atingiu novas máximas no conjunto do S&P 500. O nível ficou significativamente acima da rentabilidade operacional das empresas da Europa, do Japão, do Canadá e dos mercados emergentes.
Essa mudança é relevante porque o índice atual tem uma composição diferente da observada décadas atrás. No passado, o S&P 500 tinha peso maior de empresas da economia tradicional, com margens e ROE menores. Por isso, comparar diretamente o múltiplo médio histórico com o índice atual pode colocar lado a lado estruturas empresariais diferentes.
O que o valuation mostra
A bolsa americana é negociada hoje a múltiplos mais elevados do que sua média histórica. O múltiplo, porém, não deve ser analisado isoladamente. O chamado P/E justo depende do retorno sobre o capital e da taxa de crescimento incorporada ao modelo. Quando crescimento e ROE são maiores, o múltiplo considerado adequado também pode ser mais alto.
A PEG ratio, que ajusta o P/E pelo crescimento, é uma das formas de complementar essa avaliação. A métrica não elimina todas as dúvidas, mas mostra que um mercado pode ficar mais barato nessa relação mesmo com a alta dos preços, caso os lucros projetados cresçam mais rapidamente.
Esses dados não autorizam concluir que a bolsa está barata nem que o investidor deve comprar sem avaliar os riscos. Eles indicam apenas que dizer que ela está cara é uma conclusão incompleta.
A bolsa pode corrigir, reduzir seus múltiplos e frustrar quem espera uma alta contínua. O fato de o P/E estar acima da média histórica, entretanto, não basta para confirmar uma bolha ou indicar automaticamente uma saída. Alocação, diversificação, horizonte de investimento e preço de entrada continuam sendo fatores relevantes.



