SERRA DO CAPARAÓ — A produção de cafés especiais está mudando a economia da Serra do Caparaó, em Minas Gerais, na divisa com o Espírito Santo. O cultivo tem recuperado propriedades históricas, atraído turistas e ampliado a participação de mulheres e jovens nas atividades rurais.
Em 2025, a região colocou oito dos 10 cafés arábica mais bem avaliados do País. O resultado consolidou o Caparaó entre os principais produtores de cafés especiais e afastou a antiga reputação de “pior café do Brasil”.
A transformação passa pela adoção de sistemas agroecológicos e agroflorestais, que combinam o café com árvores nativas, frutíferas e espécies destinadas à produção de madeira. Segundo os produtores, essas práticas ajudam a regenerar o solo e a valorizar as características da região. Adaptações tecnológicas de baixo custo também reduziram despesas e contribuíram para o reconhecimento por meio de selos de indicação geográfica, além de prêmios nacionais e acesso ao mercado internacional.
Assistência e sucessão rural
O Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), do Sistema Faemg Senar, já atendeu propriedades em Luisburgo, Divino, Manhuaçu, São José do Manhuaçu, Reduto, Alto Caparaó, Alto Jequitibá, Caparaó, Espera Feliz e Manhumirim. Nesse trabalho, 21 técnicos de campo visitaram 499 propriedades.
A analista Jacqueline de Fátima Santos afirma que a assistência busca agregar valor à produção e estimular a permanência das famílias no campo. O programa também trabalha com jovens rurais por meio do Faemg Jovem, voltado à sucessão familiar.
Na propriedade do Café Ninho da Águia, em Alto Caparaó, Clayton Barroso Monteiro conta que a família começou a plantar café nos anos de 1950, em áreas mais planas. As geadas prejudicavam as lavouras, até que técnicas como a curva de nível e a curva individual no morro contribuíram para melhorar a produção na década de 1970.
Para ser classificado como especial, o café precisa alcançar ao menos 80 pontos na escala da Specialty Coffee Association (SCA), que vai de zero a 100. Entre 80 e 84,99 pontos, a bebida é considerada muito boa; de 85 a 89,99, excelente; e acima de 90, excepcional.
Monteiro voltou à propriedade em 1996 e passou a investir em cafés especiais. A produção ocorre a uma altitude média de 1.000 metros, em um sistema agroflorestal com árvores para madeira, espécies nativas e frutas. Embora a exportação seja uma possibilidade, ele prioriza o mercado interno. Na propriedade, 80% da produção passou a ser torrada e 20% é exportada.
Famílias ampliam atividades
No município de Caparaó, Dayane e Robson Xavier de Lima administram o Sítio Centenário, que se prepara para receber a sexta geração da família. Além do café, a propriedade oferece hospedagem, refeições e atividades em que os visitantes aprendem a fazer a classificação física dos grãos, processo conhecido como “catação do café”.
A família tinha 4.500 pés de café quando chegou ao sítio. Atualmente, são 12 mil, com a expectativa de chegar a 16 mil nos próximos três anos. O aumento foi acompanhado por mudanças no espaçamento e pelo adensamento das lavouras.
O preço também diferencia os produtos. O quilo do café arábica torrado e moído custa entre R$ 38 e R$ 58 nos supermercados de Belo Horizonte, enquanto os cafés especiais das propriedades visitadas na região são vendidos por R$ 140 a R$ 258. Considerando os preços médios de R$ 48 e R$ 199, respectivamente, a diferença chega a 314,6%.
Em Alto Jequitibá, Silmara Emerick e Charles Lopes de Souza administram o Sítio Imperial da Serra. Ela criou a própria marca e separou as lavouras para identificar a origem dos diferentes perfis sensoriais. Ele passou a adaptar máquinas antigas para reduzir custos. Um lavador com descascador adaptado, segundo Souza, já tem umas 600 cópias. O equipamento, que custaria R$ 150 mil no mercado, foi produzido por R$ 30 mil.
Café e turismo
Em Espera Feliz, Anadson de Souza introduziu os cafés especiais na propriedade em 2017. Depois de ficar com uma meia saca que não foi entregue ao comprador, ele passou a embalar o produto e a vendê-lo no sítio. A atividade levou à criação de uma cafeteria e de experiências de turismo rural. O produtor afirma ter mais de 40 cursos no Senar e no Sebrae, do plantio à formação de barista.
A Rota das Experiências do Caparaó Mineiro reúne Caparaó, Alto Jequitibá, Espera Feliz e Alto Caparaó. O roteiro integra o Circuito Pico da Bandeira, formado por 23 municípios da Zona da Mata, e combina cafés especiais, hospedagem, alimentação e atividades ligadas à natureza.
Para Ramiro Aguiar, presidente da Agência de Desenvolvimento do Caparaó Mineiro, a altitude, as águas e a proximidade com o Parque Nacional do Caparaó ajudam a formar as características do café produzido na região. Em Alto Caparaó, o Cristal Mirante oferece café da tarde e vista para o Pico da Bandeira. Em Alto Jequitibá, o Portal da Lua promove degustações acompanhadas pelo pôr do sol. A secretária municipal de Cultura e Turismo, Andiara Machado, aponta oportunidades para novos investimentos em hospedagem, alimentação e atrativos ligados à natureza.



