SÃO PAULO — O advogado Ricardo Sayeg, que representa a produtora Karina Ferreira da Gama, afirmou que ela não sabia a origem do dinheiro usado para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, Karina apresentou o projeto a um fundo de investimentos, que estruturou o financiamento da produção.
“Ela não sabia de absolutamente nada, ela apresentou o projeto, e o projeto foi materializado através do fundo”, disse Sayeg em entrevista nesta segunda-feira (14).
A defesa também negou que Karina soubesse de uma eventual ligação dos recursos com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ou com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Vorcaro está preso em Brasília sob acusação de chefiar um esquema de fraudes financeiras. As operações investigadas, incluindo negócios com o BRB (Banco de Brasília), podem chegar a R$ 17,5 bilhões, segundo a Polícia Federal.
Investigações sobre os recursos
A Polícia Civil de São Paulo apura a origem do dinheiro usado no filme e uma possível relação com recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. A empresária também é sócia da Go Up Entertainment.
Os investigadores analisam se valores do programa WiFi Livre SP foram usados em atividades ligadas ao longa. Também apontam que a origem dos recursos privados empregados na produção não teria sido esclarecida e investigam se contas de empresas subcontratadas e de outras organizações sociais administradas por Karina serviram para ocultar os valores.
A defesa afirma que uma perícia feita no Brasil indicou que todo o dinheiro depositado na conta da Go Up brasileira foi destinado à produção do filme. Sobre os gastos nos Estados Unidos, Sayeg disse que a produtora americana não entregará voluntariamente os documentos por causa de cláusulas de confidencialidade. Segundo ele, os arquivos podem ser fornecidos se houver solicitação formal das autoridades por meio de cooperação internacional.
O Coaf identificou um repasse extra de US$ 1,6 milhão de Daniel Vorcaro para o fundo que administrava os recursos do filme nos Estados Unidos. O envio ocorreu em 16 de setembro de 2025 para o Havengate Development Fund, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado amigo de Eduardo Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga a origem e a movimentação dos recursos em inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A Polícia Civil de São Paulo havia pedido desde maio acesso a dados do Coaf sobre Karina e o ICB. Até domingo (13), havia pelo menos quatro pedidos pendentes na Justiça paulista. Na mesma data, o ministro Flávio Dino retirou o sigilo do caso e autorizou o acesso às informações.
Objetivo internacional
Sayeg afirmou que o projeto foi apresentado ao Havengate Development Fund e que um sócio americano atuava como interlocutor de Karina. A produção foi gravada em inglês, com elenco e direção de Hollywood, e teve custo estimado entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões, segundo a Polícia Civil.
O advogado disse que o filme tinha como objetivo disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro. A defesa afirma que o lançamento foi adiado para evitar politização durante o período eleitoral. Para Sayeg, a decisão dificultou a estratégia de marketing e distribuição, a negociação com salas de cinema e o cronograma planejado.
“O filme só não foi exibido antes das eleições justamente para evitar essa politização”, afirmou.



