O Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Ferreira da Gama, teve um tesoureiro-geral que aparece em atas por seis anos, mas afirma nunca ter atuado na organização. O eletricista Jacio de Medeiros Dantas disse que emprestou o nome para o cargo a pedido da mãe de Karina e que não participou de reuniões ou assembleias.
Dantas consta como tesoureiro-geral em gestões entre 2014 a 2021 e também aparece como secretário de assembleias. Em uma conversa por telefone, negou ter exercido a função. “Não, nunca [atuei como tesoureiro do ICB]. Até porque eu tenho outro trabalho”, afirmou.
Segundo ele, Karina estava montando uma ONG para realizar um projeto de dança e precisava indicar pessoas para diferentes funções. Dantas disse que aceitou constar nos documentos porque conhecia a empresária, mas não tinha tempo para desempenhar atividades na entidade.
Divergências em documentos
As assinaturas atribuídas a Dantas nas atas apresentam diferenças entre si e também em comparação com documentos públicos ligados a ele. O nome do eletricista aparece na ata de 29 de setembro de 2014, quando Karina foi eleita presidente, em uma reforma do estatuto de 2015, em outra reforma realizada em 2 de outubro de 2017 e em uma carta de renúncia de janeiro de 2020.
Depois de receber imagens de duas assinaturas, Dantas afirmou que não reconhecia nenhuma delas como sua. A comparação com assinaturas presentes em um processo judicial do qual ele participa indicou semelhanças entre a firma oficial do eletricista e os registros de 2014 e 2015. Já as assinaturas atribuídas a ele nos documentos de 2017 e 2020 eram distintas.
A ata de outubro de 2017 também apresenta divergências em assinaturas atribuídas a Rafael Tadeu da Silva Santanna e Karina Pereira Penha. Santanna teria sido secretário-geral do ICB de 2014 a 2017. Penha teria assumido a secretaria-geral depois da saída dele, mas sua assinatura no documento não coincide com a de uma procuração feita em janeiro de 2023.
Santanna disse que ficou surpreso com as divergências e que não se lembrava de ter assinado atas ou documentos. Ele pediu acesso aos registros, mas não respondeu depois que os documentos foram enviados. Penha confirmou ter trabalhado na ONG, mas não respondeu sobre as assinaturas nem sobre o período em que ocupou o cargo.
Investigações e contratos
O ICB fechou, em 2024, um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar Wi-Fi público na capital. O acordo é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de irregularidades.
A organização também é alvo de uma investigação da Polícia Federal sobre possível desvio de recursos de emendas parlamentares. Entre os repasses estão R$ 2 milhões enviados pelo deputado federal Mario Frias, roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”.
Uma auditoria da Controladoria-Geral da União concluiu que o instituto desviou recursos do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria em sete estados e no Distrito Federal. Dos R$ 11 milhões recebidos pelo ICB, ao menos R$ 2,4 milhões foram considerados superfaturados pela CGU.
Desde 2014, 12 pessoas passaram por funções como conselheiros fiscais, secretários e tesoureiros. Entre elas está Regina Ferreira da Gama de Nazaré, mãe de Karina, que foi vice-presidente do instituto entre setembro de 2014 e setembro de 2017. O grupo inclui pessoas de diferentes locais do Brasil, com núcleos no Distrito Federal, em São Paulo e em Uberlândia, em Minas Gerais.
O ICB e Karina Ferreira da Gama foram procurados, mas não responderam até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.




