FRANCISCO MORATO — Maria Edna Félix da Silva, de 54 anos, comemorou com o neto Kauã, de 15 anos, a nota 9 obtida em uma prova de Geografia da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A estudante está no 2º ano do Ensino Médio na Escola Celestina Valente Lengenfelder e voltou a estudar no ano passado.
O momento em que recebeu a avaliação foi registrado na escola e circulou nas redes sociais. Ao ver o resultado, Maria Edna se levantou, perguntou se poderia fotografar a prova para enviar ao neto e celebrou com os colegas. Kauã é um dos principais incentivadores da avó para que ela continue os estudos. “Vó, você não vai parar, vó, eu te ajudo”, costuma dizer o adolescente.
Maria Edna espera concluir o Ensino Médio em 2027. Depois, pretende fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e tentar uma vaga em Nutrição, área ligada ao interesse que tem por preparar pães, bolos, sonhos e tortas.
A rotina até a escola começa por volta das 3h. Ela pega o transporte às 4h30 e trabalha em uma empresa terceirizada de limpeza, em jornadas de 12 horas. Nos dias de folga, atua como diarista para complementar a renda. Os dois empregos rendem entre R$ 2,6 mil e R$ 3 mil por mês.
A estudante é a principal responsável pelas despesas da casa, onde vive com o marido e o filho. O marido parou de trabalhar por causa de problemas de saúde. Depois do expediente, Maria Edna segue diretamente para a escola e chega em casa perto da meia-noite.
“Duas horas, três horas no máximo”, disse ela ao contar quanto dorme por noite. O cansaço também aparece durante as aulas: às vezes, ela cochila, e os colegas Afonso e Luiz a acordam e a incentivam a continuar.
Retomada dos estudos
Nascida em Garanhuns, Pernambuco, Maria Edna chegou a São Paulo por volta dos 7 anos. Ela deixou a escola ainda jovem para ajudar a mãe, que criava sozinha os cinco filhos. Ao longo da vida, tentou retomar os estudos outras vezes, mas precisou interrompê-los novamente.
Depois de se casar e ter dois filhos, deixou a escola mais uma vez para ajudar a filha, que é mãe solo, nos cuidados com os dois netos. No ano passado, voltou a estudar e decidiu seguir até o fim.
Geografia e História estão entre suas disciplinas preferidas. Na prova em que recebeu a nota 9, havia questões sobre refugiados, migrações e deslocamentos provocados por conflitos, assuntos que ela já acompanhava pelo celular. A questão 3 tratava dos deslocamentos forçados por guerras e conflitos armados, incluindo os registrados na guerra no Irã.
Maria Edna não mantém perfil nas redes sociais e afirma que usa principalmente o celular para acompanhar as notícias. Para ela, estar informada também ajuda nos estudos. A proximidade com Kauã continua no dia a dia: ela costuma mandar mensagens quando sabe que ele está voltando da escola, e o neto responde ao chegar em casa.



