SÃO PAULO — Bibliotecas com jogos, videogames, quadrinhos e mangás estão sendo usadas para aproximar crianças e adolescentes dos livros. A Biblioteca Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, recebe, em média, 11 escolas por mês e oferece sala de leitura, computadores, auditório e outras atividades.
A instituição limita o tempo de uso dos computadores e videogames, que ficam disponíveis ao público geral. Wellington Custódio, coordenador de atendimento e mediação, afirma que a intenção é apresentar outras possibilidades aos jovens. “Tentamos criar um espaço que seja uma porta de entrada para crianças e adolescentes que não gostam de ler desenvolverem o hábito de leitura”, diz.
A visita também pode surpreender estudantes que já gostam de livros. Wagner Alan, 14, aluno do 8º ano no CEU Emef Jaguaré, conheceu o espaço com a escola e se interessou pela estrutura. Ele lê principalmente histórias de guerras e não esperava encontrar videogames, sala de jogos e auditório no local.
Escolhas feitas pelos alunos
Em escolas, outra estratégia é permitir que os próprios estudantes participem da seleção das obras e conduzam atividades. No projeto Mediadores da Leitura, da Emef Ruy Barbosa, alunos do 6º ao 9º ano apresentam livros e contam histórias para crianças menores que estão em fase de alfabetização.
Os títulos trabalhados são escolhidos pelos estudantes do ensino fundamental 2. Vanusa Rosa Ferreira, professora de português e coordenadora do projeto, considera que a autonomia e o planejamento participativo ajudam a criar contato com os livros.
Guilheme, 13, aluno do 8º ano, conta que passou a ler mais depois de entrar no projeto. Ana Claudia, 13, diz que a atividade também ajuda os participantes a falar em público e a ler sem gaguejar.
A Emef Ruy Barbosa mantém ainda um clube de leitura para alunos a partir do 4º ano do ensino fundamental. Os participantes decidem coletivamente quais livros serão lidos, e as vagas das duas atividades extracurriculares são disputadas, segundo Ferreira.
Clássicos em diálogo com o presente
Na Escola Estadual Paulo Octávio Azevedo, na zona sul da capital paulista, a professora de português Anaídes Silva passou a contextualizar as obras antes da leitura. Em 2025, depois que um vídeo de uma influenciadora norte-americana viralizou ao mostrar a leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, ela aproveitou o interesse dos alunos para fazer uma leitura dirigida em sala.
Silva afirma que o volume de informações e o uso de telas mudaram a relação dos adolescentes com os livros, mas não considera as redes sociais inimigas. Para ela, é necessário apresentar a obra e criar uma entrada para a história.
Andrea Maggi, professora de português que dá aulas para turmas do ensino fundamental e médio na rede particular de Belo Horizonte (MG), combina clássicos e autores contemporâneos. Ela promove conversas antes e depois das leituras para discutir o que permanece atual nas obras e como os personagens poderiam ser pensados na era digital.
Leitura compartilhada
No colégio Vera Cruz, na zona oeste paulista, o círculo de leitura ocorre até duas vezes por trimestre e é obrigatório para alunos do 6º ao 9º ano. Os estudantes escolhem um título entre opções, fazem um fichamento e apresentam a obra à turma.
Mariana, 12, diz que a atividade a coloca em contato com livros que provavelmente não escolheria sozinha. Clara Remkus, coordenadora de língua portuguesa dos anos finais do ensino fundamental, afirma que os encontros ampliam o debate para além da relação entre professor e aluno.
A proposta também permite conversar sobre dificuldades, abandono e falta de identificação com uma obra. Assim, os estudantes podem discutir por que não gostaram ou desistiram de um livro, além de compartilhar diferentes experiências como leitores.



