Candidatas e parlamentares de Minas Gerais denunciaram ameaças de morte, violência sexual e agressões durante o período eleitoral. Elas também criticaram a falta de preparo da Justiça Eleitoral e da Polícia Federal para proteger mulheres vítimas de violência política de gênero.
A deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG), candidata a uma vaga federal, afirmou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro. Para ela, a violência política acompanha a violência de gênero no estado, que ocupa a segunda posição entre os que mais matam mulheres do Brasil em números absolutos.
Ameaças e agressões
No último sábado, 12 de setembro, Fernanda Klitzke (PT), suplente ao Senado e advogada, foi agredida, chutada e atingida por balas de borracha disparadas por policiais militares em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. O caso ocorreu depois de uma denúncia de som alto.
Também em Minas Gerais, a deputada estadual Andréia de Jesus (PT), candidata à reeleição, informou ter recebido ameaças de morte com conteúdo racista e de violência física por meio de uma mensagem eletrônica.
A deputada federal Ana Elisa Santos Silva (PT), que disputa sua primeira eleição, registrou um Boletim de Ocorrência após receber mensagens com ameaças de morte, violência sexual e conteúdo de ódio racista. Ela disse que continua sem segurança e sem medida protetiva, mesmo depois de levar o caso aos órgãos competentes e ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas.
No dia 4 de setembro, Duda Salabert (PSOL-MG), candidata à reeleição, relatou agressões sofridas enquanto fiscalizava uma mineração ilegal na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima. Segundo a denúncia, os ataques foram seguidos por uma tentativa de homicídio.
“A violência no Brasil [contra as mulheres] nunca parou; na verdade, ela está em crescimento”, afirmou Ana Elisa Silva.
Bella Gonçalves também criticou a falta de regulamentação das leis de proteção às mulheres que atuam na política. Ela disse que as candidatas que ingressam na vida pública permanecem desprotegidas diante da violência política de gênero, tanto no âmbito da Justiça Eleitoral quanto na aplicação da legislação estadual.
Após as ameaças, Gonçalves formalizou pedidos de providências na Gerência-Geral de Polícia Legislativa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Justiça Eleitoral. A deputada também cobra investigação pelas forças de inteligência da polícia e segurança para ela e seus familiares. Ela pretende entregar ao Partido dos Trabalhadores uma carta para pedir o uso do fundo partidário no combate à violência política de gênero e na proteção das candidatas.
Participação feminina e violência política
A reserva de candidaturas femininas nos partidos existe há 30 anos, desde 1996. Nas eleições de 2022, mulheres ocuparam 17,7% das vagas da Câmara Federal. Já a legislação específica contra a violência política dirigida às mulheres foi criada há cinco anos, com a Lei nº 14.192/2021.
Para Maíra Baracho, gestora de mobilização da plataforma Bonde, a violência política busca afastar mulheres dos espaços de poder. Ela afirma que os ataques se intensificam na política institucional porque procuram expulsar mulheres de um ambiente que não foi pensado para elas.
Baracho citou a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) ao lembrar que, durante a Assembleia Constituinte responsável pela Constituição de 1988, não havia banheiro feminino na Câmara Federal. No Senado, o primeiro banheiro feminino foi construído apenas em 2016.
Bella Gonçalves avaliou que as ameaças têm o objetivo de intimidar mulheres durante um período eleitoral acirrado. Ana Elisa Silva afirmou ainda que os ataques contra candidatas mineiras fazem parte de uma ação coordenada para enfraquecer candidaturas progressistas no estado.
Medidas de proteção
Baracho defendeu o suporte contínuo às candidatas vítimas de violência para evitar que os ataques provoquem o abandono da atividade política. Gonçalves disse que já havia sido alvo de ameaças antes dos episódios registrados neste mês.
Em 2024, parlamentares estaduais e municipais, em sua maioria mulheres lésbicas, receberam ameaças de estupro corretivo e violência de gênero. O grupo participou da aprovação da Lei nº 24.466/2023, que criou a política de enfrentamento à violência política contra a mulher.
Também foi realizada a Operação Di@na, parceria entre o Ministério Público de Minas Gerais e as polícias Civil e Militar do estado. A ação identificou fóruns e grupos na internet, conhecidos como chans, nos quais participantes incentivavam violência, pedofilia e necrofilia. Um dos autores das ameaças contra parlamentares foi preso em 2025.
Para Gonçalves, a prisão não resolveu o problema, porque as mensagens recebidas agora tinham características semelhantes às de 2024, com descrições de brutalidade e informações privadas. Ela defende a criação de canais da Justiça Eleitoral e das polícias Civil e Militar para receber denúncias e encaminhá-las rapidamente para investigação.
A deputada também defende que empresas de tecnologia sejam responsabilizadas pelas violências praticadas na internet. Maíra Baracho, por sua vez, afirmou que o Estado deve regular as redes sociais e pressionar as empresas a participar do enfrentamento do problema.
Para Baracho, a mobilização social é necessária para proteger mulheres que assumem funções políticas e para construir as pautas desses mandatos. Ela avalia que a violência não ameaça apenas o corpo das vítimas, mas também as agendas e os grupos representados por elas.



