SÃO PAULO — O governo de São Paulo estuda leiloar prédios históricos no Centro da capital, incluindo o Hotel Esplanada, o antigo Cine Marrocos e o edifício do Banco de São Paulo. Os imóveis são ocupados atualmente por secretarias estaduais ou estão sem uso regular.
A proposta ainda está em elaboração. A ideia é vender os edifícios com destinações definidas em contrato, para preservar as características protegidas e estimular atividades como hotelaria, entretenimento e habitação. Os compradores também deverão realizar projetos de retrofit, adaptando os prédios a novos usos sem eliminar seus elementos arquitetônicos originais.
O secretário especial de Projetos Estratégicos, Guilherme Afif Domingos, afirmou que os primeiros leilões podem ocorrer no próximo ano. O modelo ainda é estudado e pode envolver mecanismos semelhantes a Parcerias Público-Privadas ou chamamentos para a apresentação de projetos.
“Será um leilão com propósito, não é simplesmente vender para qualquer um”, disse Afif. De acordo com ele, os imóveis podem contribuir para a recuperação do Centro.
A possível venda está ligada à transferência da estrutura administrativa estadual para a região dos Campos Elíseos. O novo complexo deve reunir cerca de 22 mil funcionários que hoje trabalham em dezenas de prédios espalhados pela cidade. As obras têm custo estimado em R$ 6,1 bilhões e entrega prevista para 2030.
Os leilões também podem ajudar a custear parte das desapropriações necessárias para a nova sede, estimadas em R$ 600 milhões. Afif afirmou que algumas secretarias podem ser transferidas antes da construção do centro administrativo, por terem poucos funcionários.
Imóveis avaliados
O Hotel Esplanada fica nos fundos do Theatro Municipal de São Paulo, na Praça Ramos de Azevedo. Inaugurado em 1923, foi projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire, o mesmo responsável pelo Copacabana Palace. O prédio funcionou por mais de três décadas como hotel de alto padrão e, nos anos 1960, passou a ser sede do grupo Votorantim.
O governo paulista comprou o edifício em 2012. Hoje, o local abriga as secretarias estaduais de Agricultura e de Turismo, que reúnem 621 funcionários. A expectativa é que, com o leilão, o imóvel volte a ser explorado como empreendimento hoteleiro.
Vizinho ao hotel, o antigo Cine Marrocos fica na Rua Conselheiro Crispiniano. Inaugurado em 1951, foi apresentado como o “mais luxuoso cinema da América do Sul”. O prédio está sem uso regular desde os anos 1990 e chegou a ser ocupado por um movimento de moradia. A ocupação terminou em 2016, após uma reintegração de posse movida pela prefeitura.
A sala de cinema tem capacidade para cerca de 2 mil pessoas. O plano em avaliação prevê sua transformação em espaço para espetáculos, enquanto a torre de 12 andares poderia receber moradias. Um galpão anexo, que não tem proteção patrimonial, poderia ser demolido para a construção de um novo edifício.
Na Praça Antônio Prado, o antigo Banco de São Paulo abriga atualmente 185 servidores da Secretaria de Esportes. Inaugurado em 1938, o prédio precisa de intervenções estruturais e modernização. O governo avalia transferi-lo à iniciativa privada para novos usos relacionados a entretenimento, hotelaria e habitação.
O salão da antiga agência bancária tem pisos de mosaico, mármores, vitrais e esculturas. O espaço está fechado ao público desde a pandemia de Covid.
Em uma segunda etapa, o governo também pretende avaliar o leilão do edifício Saldanha Marinho, sede atual da Secretaria da Segurança Pública. A transferência da pasta deve exigir mais tempo por causa do número de servidores que trabalham no local. O prédio fica no Largo de São Francisco, perto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, e uma das possibilidades é destiná-lo à habitação estudantil.
A Casa Caetano de Campos, na Praça da República, não deve integrar o pacote. O imóvel abriga a Secretaria de Educação há quase cinco décadas, foi inaugurado em 1894 e tem projeto do arquiteto Ramos de Azevedo. A proposta atual é transformá-lo em uma escola modelo.
Críticas ao modelo
Para Marcelo Ignatios, diretor da área de Patrimônio e Cidades do Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo, estabelecer encargos e usos previamente definidos é melhor do que vender os imóveis apenas pelo maior lance. Ele, porém, defende alternativas como concessões de longo prazo e fundos de investimento imobiliário voltados a ativos públicos, que permitiriam transferir a gestão sem retirar a propriedade do Estado.
Ignatios também considera necessário proteger as regras de tombamento e vincular os novos usos às políticas de requalificação do Centro, especialmente à produção habitacional. Caso a venda avance, ele defende que os recursos sejam aplicados em políticas públicas, como habitação social e educação básica, e não apenas nas desapropriações do novo centro administrativo.
O governo paulista informou que avalia continuamente seu patrimônio imobiliário e escolhe os instrumentos de gestão conforme as características e a finalidade de cada ativo. A decisão sobre os leilões deve considerar destinações que atendam ao interesse público e tragam benefícios à sociedade. A Subsecretaria de Patrimônio do Estado conduz levantamentos técnicos, análises patrimoniais e estudos sobre a viabilidade de uso dos imóveis.



