NOVA YORK — O presidente Lula voltou a criticar Donald Trump, a quem chamou de imperador, e afirmou que o Brasil poderá aplicar a Lei da Reciprocidade contra produtos dos Estados Unidos se não houver avanço nas negociações sobre as tarifas impostas por Washington.
Em entrevista nesta segunda-feira (21) ao programa de Christiane Amanpour, da CNN, Lula disse que Trump tem autoridade para governar os Estados Unidos, mas não para impor decisões a outros países. O presidente brasileiro também pediu respeito e afirmou que os dois governos precisam negociar.
Lula declarou que solicitou ao republicano que não interfira nas eleições brasileiras, assim como, segundo ele, não interfere nas eleições americanas. O presidente afirmou que Trump teria dito a outras pessoas que não pretende interferir no processo eleitoral do Brasil. Lula também mencionou preocupação com a proximidade entre o secretário de Estado, Marco Rubio, e a família Bolsonaro.
Tarifas e negociação
Sobre as medidas comerciais americanas, Lula afirmou que o Brasil buscará novos parceiros em vez de apenas reclamar das tarifas. Ele disse, porém, que enquanto as negociações estiverem em andamento não pretende aplicar imediatamente a Lei da Reciprocidade. Caso não haja acordo, afirmou que a medida poderá ser adotada.
O Brasil voltou a sofrer tarifas adicionais dos Estados Unidos em julho deste ano. Uma cobrança de 25% foi imposta no contexto de uma investigação sobre práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio americano. Outra tarifa, de 12,5%, foi aplicada sob a alegação de que não existiria uma proibição efetiva à importação de produtos feitos com trabalho forçado. Em determinados produtos, as sobretaxas chegam a 37,5%.
Lula afirmou que as tarifas são baseadas em informações falsas e disse que o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. Ele também criticou a forma de atuação de Trump, que, segundo o presidente, parte da ideia de que o país mais forte pode impor sua vontade aos demais.
Venezuela e multilateralismo
A soberania da Venezuela também foi abordada na entrevista. Lula criticou a atuação americana no país após a captura de Nicolás Maduro em uma operação dos Estados Unidos. Para o presidente, a soberania venezuelana foi comprometida e a situação prejudica a democracia.
Delcy Rodríguez, que era vice de Maduro e assumiu a liderança interina da Venezuela, está em Nova York e tem reunião marcada com Trump na terça-feira (22). Com o apoio do presidente americano, Caracas passou a ser reintegrada a fóruns internacionais, incluindo discussões na ONU e sobre energia global.
Lula também defendeu o multilateralismo e citou a iniciativa P4M, formada por Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia. O grupo pretende ampliar alianças internacionais. Para o presidente, a cooperação entre países é necessária para manter a harmonia mundial, enquanto o individualismo pode provocar distorções no comércio.
Eleições e encontro em Nova York
Às vésperas da eleição, Lula afirmou que está confiante na vitória, embora tenha reconhecido preocupação com a disputa. Ele disse que o processo eleitoral envolve temas como democracia, preservação da natureza, inclusão social e apoio à cultura.
O presidente também criticou Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de traidor por ter ido para os Estados Unidos. Sobre o filme “Dark Horse”, dedicado à vida de Jair Bolsonaro, Lula afirmou que será esclarecido como a produção foi financiada. Mensagens divulgadas pela Polícia Federal indicaram que o filme recebeu recursos de Daniel Vorcaro, preso em decorrência dos escândalos do Banco Master.
Ainda nesta segunda-feira, Lula recebeu o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. Com Orsi, discutiu infraestrutura e comércio agrícola.



