O senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, para cobrar explicações sobre medidas do governo Donald Trump relacionadas ao Brasil. Os parlamentares afirmam que a atuação americana pode representar uma tentativa de pressionar autoridades e influenciar o ambiente político antes da eleição presidencial de outubro.
A iniciativa foi da deputada Delia Ramirez. Pramila Jayapal e Chuy Garcia aparecem como signatários principais. O documento pede que os Estados Unidos se comprometam a respeitar o processo eleitoral brasileiro e reconheçam o resultado certificado das urnas, qualquer que seja o candidato escolhido pelos eleitores.
Entre os signatários estão parlamentares de comissões responsáveis por acompanhar a política externa e fiscalizar o Executivo. Jayapal e Jonathan Jackson integram a Comissão de Relações Exteriores. Greg Casar e Maxwell Frost fazem parte da Comissão de Supervisão.
Medidas questionadas
A carta cita sanções contra autoridades brasileiras, decisões comerciais dos Estados Unidos e a relação do governo Trump com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Também menciona o encontro entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, na Casa Branca.
De acordo com o documento, Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos incluíssem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras. Dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou a designação das duas facções.
Os congressistas afirmam que a sequência dos fatos aumentou, no Brasil, a preocupação com possíveis efeitos da classificação. A carta registra que autoridades brasileiras temem o uso da medida como base para sanções, punições financeiras ou outras ações fora do território americano. O documento também cita receios sobre o eventual uso da força dos Estados Unidos na região.
O grupo questiona ainda uma tentativa de visita ao Brasil por integrantes do Departamento de Estado. Conforme relatado na carta, a delegação pretendia levantar dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro, mas foi impedida de entrar no país. Depois, o governo Trump revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.
Em nota divulgada em agosto, o Departamento de Estado afirmou que respeitaria a escolha feita pelo povo brasileiro em eleições livres e justas. A porta-voz Amanda Roberson também disse que a decisão sobre o próximo presidente caberia aos brasileiros e que os Estados Unidos trabalhariam com o Brasil independentemente do resultado.
Perguntas ao governo americano
Além das questões eleitorais, os parlamentares pedem informações sobre os critérios usados para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pela Lei Global Magnitsky. Eles também querem detalhes sobre a metodologia para avaliar pedidos de sanções feitos por estrangeiros.
A carta solicita ainda as justificativas para a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e para a revogação do visto da representante diplomática brasileira nos Estados Unidos.
Os signatários afirmam que a postura atual de Washington difere da adotada na eleição brasileira de 2022, quando o governo americano reconheceu rapidamente a vitória de Lula. O documento também lembra o apoio dos Estados Unidos às instituições brasileiras após os ataques de 8 de janeiro de 2023.
Na avaliação dos congressistas, o caso brasileiro integra um padrão mais amplo de interferência em eleições da América Latina e pode reduzir a confiança nas instituições democráticas da região. O Departamento de Estado recebeu prazo até 30 de setembro para responder às sete perguntas.
Sanders encontrou Lula nesta semana, às margens da Assembleia Geral da ONU, e perguntou sobre a possibilidade de interferência nas eleições brasileiras. Segundo auxiliares, o presidente afirmou que o governo está vigilante, mas não acredita que haverá interferência.
A campanha de Lula também acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral por possíveis interferências dos Estados Unidos nas eleições. Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência sobre ameaças ao processo eleitoral de 2026 elevou a possibilidade de influência externa americana ao nível de criticidade.



