XANGAI — Hospitais chineses combinam automação, padronização, infraestrutura e inteligência artificial para organizar serviços de radiologia submetidos a uma demanda elevada. A experiência observada durante um programa de formação em técnicas de imagens médicas oferece referências para discutir como ampliar a capacidade de atendimento no Brasil.
Em um hospital de Xangai com 800 leitos, foram observadas agendas de dois minutos para tomografias sem contraste, dez minutos para ressonâncias e metas de até 100 laudos por radiologista ao dia. Outra instituição, com 3.200 leitos e cerca de 450 mil atendimentos mensais, também mantinha uma operação voltada à alta produtividade. Os índices foram apresentados como o dobro das médias brasileiras de produtividade em exames e laudos.
A escala, porém, não depende apenas de equipamentos sofisticados. O funcionamento envolve a organização dos ambientes, a circulação de pacientes e profissionais e protocolos que reduzem os intervalos entre as etapas. Portas automatizadas e painéis de chamada fazem parte desse fluxo, no qual cada participante tem uma função definida.
IA integrada à operação
Nos serviços visitados, exames de tomografia e ressonância podem ser encaminhados automaticamente para ferramentas de inteligência artificial antes da avaliação do radiologista. A tecnologia analisa as imagens, aponta possíveis alterações e oferece sugestões estruturadas para apoiar a elaboração dos laudos.
Em alguns modelos, a IA também ajuda a priorizar casos e montar listas de trabalho. Para isso, pode considerar achados identificados nas imagens, o perfil do paciente, as características dos profissionais, metas de produtividade e prazos de atendimento.
A mudança amplia o papel da tecnologia. Em vez de atuar somente na análise das imagens, a inteligência artificial passa a conectar informações, organizar tarefas e apoiar decisões em várias etapas do atendimento.
Adaptação ao Brasil
A experiência chinesa não deve ser reproduzida integralmente. As visitas permitiram observar e trocar conhecimentos, mas não avaliaram a qualidade assistencial das instituições. Também foram identificadas diferenças entre alguns fluxos chineses e práticas de segurança já consolidadas no Brasil.
Cada sistema de saúde tem características regulatórias, assistenciais, econômicas e culturais próprias. Para o Brasil, especialmente no SUS, ampliar a capacidade pode envolver não apenas a instalação de equipamentos ou o aumento das equipes, mas também uma integração mais eficiente entre recursos, informações e profissionais.
Automação, inteligência artificial e integração de dados podem reduzir etapas manuais, organizar informações clínicas, apoiar a priorização de casos e tornar o trabalho dos especialistas mais eficiente. O resultado depende da integração dessas ferramentas à assistência de forma segura e coerente.
No INRAD, iniciativas de inteligência artificial são desenvolvidas para apoiar o atendimento e a produção de laudos. Para Cleiton Caldeira, diretor de Infraestrutura, Tecnologia e Inovação do INRAD HCFMUSP, a principal referência da experiência chinesa está na combinação entre tecnologia, processos, pessoas e infraestrutura.
O impacto da IA, nesse cenário, não será medido apenas pela precisão dos algoritmos. Também dependerá da capacidade de transformar fluxos, conectar sistemas e ampliar a capacidade das instituições de saúde.




