Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o número de novos casos de câncer no mundo pode dobrar até 2050, alcançando aproximadamente 35 milhões por ano. Diante desse cenário, especialistas e entidades defendem mudanças na formação dos profissionais de saúde, com maior atenção à prevenção, ao diagnóstico precoce e à capacidade de acompanhar a evolução dos tratamentos.
No Brasil, a oncologia aparece de maneira fragmentada nos currículos de medicina, distribuída entre áreas como patologia, clínica médica, ginecologia e especialidades cirúrgicas. A atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina não menciona de forma explícita um ensino estruturado da área, ao contrário do que ocorre com pediatria, saúde mental e medicina de família.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) publicou, em agosto deste ano, uma proposta de matriz de competências para a graduação. O documento considera necessário que os médicos formados no país conheçam medidas de prevenção, diagnóstico precoce, encaminhamento adequado, princípios básicos do tratamento e efeitos colaterais das novas terapias.
Diferenças na formação
Rafael Kaliks, supervisor da residência em oncologia clínica no Einstein Hospital Israelita, afirma que a qualidade do ensino também varia entre os programas de residência. Segundo ele, parte das instituições não tem acesso à oncologia moderna e acaba concentrada em conteúdos básicos. “Muitas residências não têm acesso à oncologia moderna”, diz.
A diferença entre o conhecimento produzido e o que está disponível nos serviços de saúde também aparece no acesso a tratamentos. Kaliks cita a imunoterapia, usada na saúde suplementar contra mais de uma dezena de tipos de câncer, mas ainda não disponível no SUS para melanoma ou câncer de pulmão.
A oncologia passou por avanços em áreas como biologia tumoral, estudos clínicos, terapia celular, oncogenética, perfil molecular dos tumores, biomarcadores, exames de imagem, terapias-alvo e imunoterapia. Com isso, o câncer de um órgão deixou de ser visto como uma única doença, exigindo avaliação personalizada e integrada.
Para Clarissa Baldotto, presidente da SBOC, ainda falta definir o conteúdo mínimo e as competências que os estudantes devem dominar. Ela destaca que a formação precisa incluir diagnóstico precoce, reconhecimento da doença, prognóstico, complicações e acompanhamento de pessoas que sobreviveram ao câncer.
Tecnologia e cuidado
A velocidade de renovação do conhecimento médico exige que os profissionais desenvolvam capacidade de atualização contínua, interpretação de evidências e análise crítica. Nesse contexto, ferramentas de inteligência artificial são usadas por estudantes para acessar informações e apoiar o aprendizado.
Uma pesquisa com 702 estudantes de medicina apontou que 58,4% consideram a inteligência artificial uma ferramenta eficaz e confiável para o ensino médico, enquanto 63% acreditam que ela oferece informações atualizadas. O uso também gera preocupação, já que nenhuma das plataformas citadas pelos participantes havia sido desenvolvida especificamente para uso médico.
Além da tecnologia, especialistas defendem o fortalecimento da comunicação entre diferentes áreas. Os chamados “tumor boards” reúnem profissionais como cirurgiões, oncologistas clínicos, radio-oncologistas e patologistas para discutir casos complexos e definir planos de tratamento. Baldotto afirma que a integração precisa incluir diálogo entre as equipes e atenção à pessoa, não apenas ao tumor.
A mudança na faixa etária de pessoas diagnosticadas com câncer colorretal, de pâncreas e de mama também reforça a necessidade de preparar profissionais não especializados para reconhecer sinais da doença e orientar a prevenção. O primeiro contato do paciente geralmente não ocorre com um oncologista, o que torna o diagnóstico precoce dependente de toda a rede de atendimento.
Para os especialistas, a formação deve ainda abordar qualidade de vida, sobrevivência ao câncer, funcionamento dos sistemas de saúde e uso das tecnologias conforme a realidade local. Quando os recursos tecnológicos não resolvem todas as necessidades, a comunicação, o acolhimento e a empatia passam a ter papel central no cuidado.



