O sofrimento ético entre médicos ocorre quando o profissional precisa agir contra seus valores fundamentais ou contra aquilo que considera melhor para o paciente. A situação pode ser provocada por restrições administrativas, financeiras ou burocráticas e não deve ser confundida com o burnout, associado à exaustão física e mental causada pela sobrecarga.
A análise é de Kleber Fervença, neuropsicanalista e especialista em saúde mental. Segundo ele, a medicina contemporânea passou de um modelo de autonomia clínica mais ampla para uma gestão orientada por métricas de eficiência e produtividade. Embora a busca por valor em saúde seja necessária, essa mudança também pode produzir conflitos que afetam a saúde mental dos profissionais.
Na perspectiva da neuropsicanálise, o problema não se limita a uma questão psicológica. O conflito entre o médico que o profissional deseja ser e a realidade da instituição manteria o sistema límbico em estado de alerta constante, gerando uma ferida ligada à própria percepção de integridade.
“O dano moral na medicina é a ferida que se abre quando o profissional sabe o que o paciente precisa, mas é impedido de realizar por barreiras administrativas, financeiras ou burocráticas”, afirma Fervença.
Efeitos para o atendimento
Instituições que ignoram esse tipo de sofrimento podem enfrentar riscos operacionais. Profissionais em conflito moral tendem a apresentar mais erros médicos, menor empatia no atendimento e maior rotatividade, o que aumenta os custos para o sistema.
Para Fervença, o cuidado com a saúde mental dos médicos precisa incluir o reconhecimento desse sofrimento e a criação de espaços de segurança psicológica. Esses ambientes permitiriam que os profissionais elaborassem as contradições do trabalho sem medo de punições administrativas.
A avaliação, portanto, é que tratar apenas o estresse não é suficiente. A integridade ética do médico é apresentada como parte essencial da qualidade do atendimento. Sem apoio para lidar com as pressões do mercado, a medicina pode perder profissionais e enfraquecer sua dimensão humanística.




