A Saúde Baseada em Valor enfrenta um obstáculo econômico: enquanto o sistema remunera principalmente consultas, exames, procedimentos e internações, organizações são estimuladas a ampliar o volume de produção. A avaliação é de César Abicalaffe, médico, CEO da 2iM Inteligência Médica e presidente fundador do IBRAVS – Instituto Brasileiro de Valor em Saúde.
Na análise do especialista, essa estrutura cria uma contradição. O setor busca prevenir doenças, coordenar o cuidado, reduzir internações evitáveis e melhorar os resultados dos pacientes, mas ainda utiliza predominantemente o modelo fee-for-service, no qual mais produção gera mais receita.
Quando uma organização evita uma internação, reduz procedimentos desnecessários ou controla melhor uma doença crônica, há ganho para o paciente e para o sistema. A questão, segundo Abicalaffe, é identificar quem captura economicamente esse valor.
Um estudo publicado no NEJM Catalyst sobre a implementação da Saúde Baseada em Valor em Massachusetts, Holanda, Noruega e Inglaterra encontrou avanços, mas também diferenças na aplicação do modelo. Entre as barreiras apontadas estava a falta de incentivos econômicos suficientes para mudanças na organização do cuidado.
Remuneração e cuidado precisam avançar juntos
Abicalaffe afirma que alterar a forma de pagamento não resolve tudo. Dados confiáveis, indicadores adequados, cuidado estruturado, governança clínica e capacidade de medir resultados também são necessários. Sem esses elementos, um novo contrato pode apenas aumentar a complexidade do sistema.
A proposta, portanto, não é simplesmente substituir o fee-for-service por capitação, pagamento por episódio ou bônus por performance. Cada modelo pode gerar distorções quando os indicadores são inadequados, os riscos não são considerados ou os objetivos não estão claros.
O ponto central é definir quais comportamentos o sistema passa a estimular. Quando parte da remuneração está ligada à qualidade, aos resultados e à eficiência, coordenar o cuidado passa a ter relevância clínica e econômica. Evitar desperdícios deixa de significar apenas perda de receita, e os interesses do sistema podem se aproximar dos objetivos assistenciais.
Para o médico, o modelo assistencial e o modelo de remuneração devem ser planejados em conjunto. O cuidado precisa permitir a medição dos resultados, enquanto o pagamento deve evoluir para sustentar essa forma de atuação.
Projetos-piloto, investimentos iniciais e lideranças engajadas continuam sendo importantes para testar novos modelos. O risco aparece quando essas iniciativas dependem permanentemente desse suporte. A transformação só estará consolidada quando os projetos continuarem funcionando depois que esses apoios deixarem de existir.




