Uma discussão pode terminar sem que o conflito seja resolvido. Quando a conversa é interrompida, a pessoa pode continuar revivendo a situação, imaginando respostas que não deu e pensando em outros desfechos para o episódio.
A psicóloga e especialista em psicologia integrativa Lilian Barbosa de Rezende, que atua há mais de 35 anos, afirma que a dificuldade persistente de se posicionar pode estar ligada à forma como alguém percebe o próprio valor. “Por medo de abandono, por essa sensação de valer menos, por não reconhecer o próprio valor”, diz.
Segundo Lilian, abrir mão repetidamente das próprias necessidades e opiniões pode provocar vazio interno e perda da percepção de identidade. Ela também relaciona esse processo a pensamentos autodepreciativos, angústia, tristeza e, em alguns casos, depressão.
Quando o conflito continua na cabeça
A ruminação emocional é a tendência de voltar várias vezes a um acontecimento, às suas causas, consequências ou possíveis finais. Um estudo publicado em 2023 na revista Psychosomatic Medicine acompanhou 107 casais casados, com idades entre 40 e 87 anos, durante uma discussão de 20 minutos sobre um problema do relacionamento.
Depois da conversa, os participantes avaliaram a proximidade que sentiam. Cerca de duas horas mais tarde, informaram quanto ainda pensavam no conflito. Pessoas mais satisfeitas com o relacionamento apresentaram menos ruminação e relataram maior proximidade logo após a discussão. O estudo também identificou menos ruminação entre quem usou com mais frequência uma linguagem centrada no “nós”.
Nem todo silêncio tem o mesmo significado. Afastar-se por um período pode ser uma forma de evitar que a irritação aumente, desde que exista a intenção de retomar o assunto quando as emoções estiverem mais organizadas. Já o silêncio usado para punir ou se afastar, conhecido como silent treatment, faz parte de outro padrão.
Uma pesquisa publicada em julho de 2026 no Journal of Family Therapy analisou 111 casais casados e encontrou associação entre esse comportamento e menor qualidade do relacionamento para os próprios indivíduos e também nos efeitos entre os parceiros. Os autores ressaltaram que o tema ainda é pouco estudado e que não é possível afirmar, de forma geral, que toda pessoa calada esteja acumulando ressentimento.
Para Lilian, a questão central é saber se o silêncio ajuda a processar o conflito ou apenas adia uma conversa necessária. Quando passa a integrar um processo de apagamento das próprias necessidades, pode contribuir para o autoabandono e para uma posição de submissão. “Isso vai gerando um vazio interno e uma despersonalização”, explica.



