SANTA MARIA — O plano de trabalho de uma emenda parlamentar destinada ao Dia da Família descreveu o evento como religioso e previu um show gospel de 90 minutos, contratado por R$ 90 mil. O recurso de R$ 200 mil foi indicado pelo então deputado federal Luciano Zucco, que não participou da programação realizada de 5 a 7 de dezembro.
A organização oficial ficou a cargo da Prefeitura de Santa Maria. No documento elaborado pelo município, o evento aparece associado à valorização dos valores familiares e à homenagem à família, com rodas e espaços de oração. A programação também reuniu fiéis evangélicos e motoqueiros.
Jader Maretoli, pastor da Jesus Church e político do Partido Liberal (PL), coordenou o evento. Durante o encerramento, em 7 de dezembro, ele chamou Zucco de padrinho e pediu aos participantes que orassem pelo então deputado. “Nós precisamos honrar quem merece honra. A Bíblia nos diz isso”, afirmou Maretoli.
O cantor David Quinlan foi contratado para a apresentação, sem licitação. Outros R$ 83,4 mil foram previstos para grades, cobertura, tendas e palco, enquanto R$ 24 mil foram destinados à locação de um painel de LED. Os gastos chegaram a R$ 197,9 mil.
Emenda fora do perfil mais frequente
Uma análise das emendas pix enviadas por Zucco entre 2024 e 2026 aponta que a maior parte dos R$ 5,6 milhões indicados por ele foi direcionada às áreas de educação e segurança pública. Na segurança, os recursos foram usados na compra de veículos, armas e outros materiais para guardas municipais, Polícia Militar e delegacias. Há pouco detalhamento sobre o destino do dinheiro enviado a escolas.
O repasse para o Dia da Família foi a única ocasião em que Zucco destinou recursos a eventos, conforme a análise. Atualmente candidato ao governo do Rio Grande do Sul, ele afirmou, por meio da equipe de comunicação, que a solicitação partiu do próprio município.
A equipe disse que o mandato recebe pedidos de prefeituras, câmaras de vereadores, entidades, associações, representantes municipais e cidadãos. Também informou que avalia critérios técnicos e legais, como interesse público, pertinência para o município, possibilidade legal de atendimento, adequação do objeto, disponibilidade orçamentária e viabilidade de execução.
Questionada sobre a relevância social e a pertinência do evento, a comunicação não prestou novos esclarecimentos. Em nota, Zucco afirmou zelar pela correta aplicação das emendas e declarou: “Caso seja identificado qualquer indício de irregularidade na aplicação dos recursos, o mandato exerce sua prerrogativa de fiscalização e adota as providências cabíveis perante os órgãos competentes”.
O deputado também enviou ofício à Controladoria-Geral da União solicitando fiscalização das emendas individuais indicadas por ele no exercício de 2025. Ao mesmo tempo, a equipe disse que, quando o recurso foi indicado, o mandato sabia apenas que a atividade se chamava “Marcha da Família”.
Prefeitura não respondeu
A gestão de Rodrigo Decimo (PSDB) não respondeu aos questionamentos sobre a escolha do destino do recurso, a participação na organização e a necessidade da emenda para a realização do evento. A Secretaria de Comunicação de Santa Maria confirmou o recebimento das perguntas, mas não enviou respostas.
O material de divulgação mencionava o apoio da prefeitura e de comércios locais, sem citar nominalmente o deputado. Decimo esteve no evento e posou para fotos com Maretoli.
Maretoli se apresenta como apóstolo da Jesus Church, é vereador suplente e concorreu pelo PL em 2024. Entre 2019 e 2020, foi secretário-adjunto da Secretaria Estadual do Esporte e Lazer do governo de Eduardo Leite (PSDB), quando era filiado ao Republicanos. Ele também atua como cabo eleitoral de Zucco e dos candidatos ao Senado Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL).
O pastor Oséas Costa, sogro de Maretoli e candidato a deputado estadual pelo Republicanos, participou do Dia da Família como atração. Maretoli foi procurado quatro vezes e não respondeu às perguntas enviadas por WhatsApp.
Regras sobre emendas para eventos
O Supremo Tribunal Federal estabeleceu regras para as emendas pix, incluindo planos de trabalho e a proibição de saques em dinheiro e de repasses para organizações não governamentais chefiadas por parentes de deputados. As regras não tratam especificamente de eventos.
Em junho deste ano, a Corte determinou a aplicação de multas a estados e municípios que não apresentarem informações sobre recursos destinados a eventos entre 2020 e 2024. O ministro Flávio Dino apontou problemas de transparência e rastreabilidade e determinou que a fiscalização considere documentos, contratos, preços, valores e a proporção entre os recursos e o porte de cada evento.



