SÃO PAULO — A Polícia Federal apreendeu duas armas de cano longo e cinco pistolas registradas em nome do deputado Mário Frias (PL) durante a operação Make Up, realizada nesta quinta-feira, 10 de setembro. Segundo a corporação, os armamentos não estavam no endereço informado no registro, situação que pode configurar porte ilegal de armas de fogo.
A investigação, porém, tem como foco principal o suposto uso de emendas parlamentares para financiar a produtora Go Up, responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Frias e Karina Ferreira da Gama estão entre os alvos. Os investigadores apuram suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
A PF aponta que duas emendas de Frias somaram R$ 2 milhões e foram destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. A entidade também está ligada à produção do filme. Bia Kicis teria enviado R$ 150 mil a negócios da empresária, enquanto Marcos Pollon teria destinado R$ 1 milhão à Academia Nacional de Cultura (ANC), também presidida por Karina.
Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam ainda transferências de R$ 645,4 mil feitas por Frias à Go Up em menos de 60 dias. Para a polícia, o valor seria incompatível com a renda mensal do deputado, de cerca de R$ 44 mil. Frias está impedido de deixar o país por decisão do ministro Flávio Dino, mas não há ordens de prisão.
A produtora movimentou R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. O período coincide quase totalmente com as gravações de Dark Horse, realizadas de 20 de outubro a 7 de dezembro de 2025. A operação ocorre em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal e foi autorizada por Dino, relator, no Supremo Tribunal Federal, das apurações sobre o uso de emendas na produção.
Da Secretaria de Cultura ao Congresso
Antes de se eleger deputado federal por São Paulo em 2022, Frias trabalhou como ator na Globo, Record e RedeTV. Ele assumiu a Secretaria Especial de Cultura em maio de 2020, após a saída de Regina Duarte, e permaneceu no cargo até 2022.
Durante a gestão, Frias e André Porciuncula defenderam o uso da Lei Rouanet para projetos ligados a armas. “Pela primeira vez, vamos colocar dinheiro da Rouanet em eventos de armas de fogo”, disse Porciuncula em uma convenção organizada pelo grupo presidido por Pollon.
Na mesma ocasião, Frias afirmou: “nós vamos deixar uma equipe totalmente alinhada ao secretário especial de cultura”. Em 2022, ele chegou à Câmara dos Deputados com mais de R$ 1,4 milhão repassados pela direção nacional do PL.
O filme e as conexões políticas
Frias é apontado como principal idealizador de Dark Horse. A proposta inicial incluía críticas à imprensa e uma teoria sobre uma suposta conspiração contra Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. O deputado também se ausentou da Câmara alegando uma missão oficial relacionada à implantação de escolas cívico-militares, período em que ocorreram gravações.
A investigação inclui conexões com os filhos de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro teria pedido R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme. A apuração registra pagamentos de R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025, além de outros R$ 8,2 milhões. Um áudio também mostra Frias agradecendo a Vorcaro pelo apoio à produção.
Eduardo Bolsonaro aparece relacionado a um rascunho de contrato com a Freeway Cam B.V., empresa com operações na Hungria e na Holanda. O fundo Havengate, sediado nos EUA e administrado pelo advogado Paulo Calixto, também teria movimentado cerca de R$ 69 milhões para o filme.
A operação Make Up é um desdobramento da ação Compliance Zero, que investiga desvios no Banco Master e levou à prisão de Vorcaro em 2025. No STF, André Mendonça é o relator das apurações sobre as fraudes envolvendo o banco.



