Documentos, auditorias e depoimentos apontam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exerceu influência sobre os seis hospitais federais do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022, embora não ocupasse cargo no governo do pai. Gestores e ex-gestores hospitalares, servidores públicos, parlamentares e funcionários de órgãos de controle relataram que indicações políticas alcançavam diretores e administradores das unidades.
O período incluiu a pandemia de Covid-19 e um orçamento superior a 3 bilhões de reais para os quatro anos. Relatório final da CPI da Covid apontou que 30% dos leitos clínicos e de UTI dos hospitais e institutos federais da capital fluminense permaneceram fechados, principalmente por falta de profissionais de saúde. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados, e uma medida provisória prorrogou apenas 1,4 mil por sessenta dias.
O Rio registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes. Mais da metade dos óbitos, 38,8 mil, ocorreu na capital.
Contratos e estrutura das unidades
Os hospitais federais citados são o Hospital do Andaraí, o Hospital Geral de Bonsucesso, o Hospital Cardoso Fontes, o Hospital de Ipanema, o Hospital da Lagoa e o Hospital dos Servidores. Em abril de 2023, uma comissão da Câmara encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados, além de andares vazios, alas fechadas, obras paralisadas e equipamentos sem uso.
No Bonsucesso, um incêndio no almoxarifado matou quatro pacientes internados com Covid-19. A emergência estava fechada por falta de pessoal, 126 dos 411 leitos estavam impedidos e os serviços de diálise, cardiologia e pós-operatório estavam parados. No Andaraí, a falta de médicos fazia a declaração de óbitos demorar até duas horas. A cozinha inacabada obrigava a unidade a gastar R$ 1,6 milhão por mês com o transporte de comida. No Cardoso Fontes, pacientes aguardavam em corredores, em pé ou em macas improvisadas.
Diagnóstico do Ministério da Saúde elaborado em fevereiro de 2023 indicou que 72% dos recursos dos seis hospitais, equivalentes a R$ 50,3 milhões por mês, eram destinados a contratos de custeio. No Bonsucesso, contratos de apoio administrativo com a Nova Rio Serviços Gerais apresentaram margens de lucro até 561% maiores que o previsto e custos indiretos até 581% superiores aos valores de referência do ministério.
Auditorias do Tribunal de Contas da União e da Controladoria-Geral da União identificaram problemas em licitações antes da assinatura dos contratos. Uma análise do Pregão Eletrônico nº 05/2022, para a compra de 120,9 milhões em insumos de cirurgia vascular no Hospital dos Servidores, apontou valores superdimensionados em aproximadamente R$ 69 milhões, ou 57% de sobrepreço. Em outro pregão, para medicamentos destinados a pacientes com câncer, o sobrepreço identificado foi de R$ 18,1 milhões sobre uma compra de R$ 31,3 milhões.
Indicações e investigação
A influência política teria começado a se manifestar na escolha de dirigentes. Em 31 de julho de 2019, Flávio se opôs publicamente à indicação de Paulo Cotrim para o Hospital Geral de Bonsucesso. Cotrim foi exonerado menos de um mês depois. Antes disso, em fevereiro daquele ano, Marcelo Muniz Lamberti havia sido escolhido para o Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio. Ele participou de uma reunião com Flávio Bolsonaro e o então ministro Luiz Mandetta em 28 de maio de 2019.
Em março de 2026, o deputado Otoni de Paula acusou Flávio de liderar um esquema de corrupção nos hospitais federais. Em maio, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chamou o senador de “o poderoso chefão” das unidades. Padilha afirmou que as indicações de diretores e decisões sobre contratos passavam por Flávio, além de mencionar funcionários fantasmas em contratos terceirizados.
No fim de agosto, o deputado Lindbergh Farias pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigasse a possível participação de Flávio nas irregularidades. O pedido citou auditorias do TCU e da CGU e uma declaração do ex-governador Wilson Witzel à CPI da Pandemia, em 16 de junho de 2021, sobre a existência de um dono dos hospitais federais.
A CPI apontou Marcelo Lamberti, George Divério, Jonas Roza e Joabe Antonio de Oliveira como responsáveis por irregularidades. Divério foi exonerado em 26 de maio de 2021 após denúncias de contratações sem licitação. Em dois dias, ele autorizou contratos que somavam R$ 28,8 milhões. Joabe aprovou contratações sem licitação superiores a R$ 14 milhões no Bonsucesso.
Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista feitos ao seu assessor. Lamberti afirmou que os atos de gestão estão registrados no Sistema Eletrônico de Informações e disse ser um “servidor técnico”. Também declarou que nomeações e exonerações cabem ao escalão superior do ministério.
Reestruturação da rede
A partir de 2023, o Ministério da Saúde mudou a gestão dos hospitais. Em outubro de 2024, o Bonsucesso passou ao Grupo Hospitalar Conceição. Dois meses depois, Andaraí e Cardoso Fontes foram entregues à prefeitura do Rio. Em dezembro, o Hospital dos Servidores foi incorporado à Universidade Federal Fluminense, sob gestão da Ebserh. O Hospital da Lagoa passou à Fundação Oswaldo Cruz em 2026, enquanto Ipanema continuou sob administração direta do ministério.
Segundo o Ministério da Saúde, o orçamento anual da rede passou de aproximadamente R$ 800 milhões para R$ 2 bilhões. Foram reabertos 335 leitos e reativadas 16 salas de cirurgia. Em 2025, as unidades realizaram 21.869 cirurgias e registraram 42.516 internações.
A melhora, porém, não ocorreu em todos os indicadores. No Hospital da Lagoa, a produção ambulatorial caiu de 1,08 milhão de procedimentos em 2023 para 606 mil em 2025. Em Ipanema, três salas cirúrgicas continuavam fechadas, e as consultas ambulatoriais recuaram de 118 mil para 112,8 mil. A fila de pessoas à espera de cirurgia aumentou de 18 mil para 21 mil desde 2024.
Em 2025, a Defensoria Pública da União encontrou biópsias acumuladas no Bonsucesso, armazenadas em formol dentro de potes de sorvete e paçoca por falta de médicos patologistas. A defensora Taísa Bittencourt Leal Queiroz informou que a instituição entrou com uma ação civil pública para pedir um novo plano de trabalho para os hospitais federais.



