A política de segurança pública de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, levou o país a uma taxa de encarceramento que, aplicada ao Brasil, representaria mais de 4 milhões de pessoas presas. A avaliação é do jornalista Carlos Dada, que acompanha o governo salvadorenho e os efeitos de suas medidas.
Em El Salvador, 1 em cada 50 habitantes está na prisão: são 120 mil presos em uma população de 6 milhões de cidadãos. O Brasil tem mais de 960 mil presos e ocupa a terceira posição entre as maiores populações carcerárias do mundo.
Dada contou que ouviu de um empresário brasileiro, durante um debate na Europa, que o Brasil precisava de um presidente como Bukele. Ao perguntar qual era o problema de segurança pública do país, ouviu que favelas brasileiras e comunidades pobres de El Salvador seriam dominadas por organizações criminosas. O jornalista respondeu que bastaria lançar bombas nesses locais. Quando o empresário ponderou que isso mataria inocentes, Dada concluiu: “você já entendeu o que é o modelo Bukele”.
Acordos com organizações criminosas
De acordo com Dada, a queda imediata dos homicídios em El Salvador não resultou apenas de uma política oficial de segurança. Ela teria sido acompanhada por um acordo com líderes de organizações como a Mara Salvatrucha.
O pacto, segundo o jornalista, envolveu a libertação secreta de chefes que estavam presos e a flexibilização de regras em unidades de segurança máxima. Entre as medidas estariam mais tempo livre, visitas de parentes e saídas frequentes para hospitais, onde os líderes poderiam se reunir com integrantes de suas organizações. Em troca, os criminosos teriam prometido reduzir os homicídios e garantir votos para Bukele em suas comunidades.
A equipe do El Faro obteve documentos e áudios sobre esses entendimentos. Em um dos registros, um ministro de Bukele teria admitido que retirou da prisão um líder conhecido como Crook e o levou de carro até a Guatemala. A viagem foi confirmada por fotos publicadas no Instagram pela namorada do criminoso, nas quais apareciam os braços e as tatuagens dele.
Dada também afirmou que criminosos presos no México e enviados aos Estados Unidos revelaram o pacto ao assinar acordos como testemunhas protegidas. Segundo ele, a Justiça americana beneficiou alguns desses criminosos a pedido do governo Trump.
Prisões e perseguição a jornalistas
O jornalista relatou ainda que um dos venezuelanos enviados para El Salvador em um grupo de imigrantes era, na verdade, um dos doze integrantes da Mara Salvatrucha capturados. Documentos analisados pela equipe indicariam que o procurador-geral da Justiça pediu a suspensão das acusações contra o homem, alegando interesses de política exterior.
Após a divulgação dessas informações, Dada e outros jornalistas do El Faro passaram a ser perseguidos pelo governo Bukele. Os celulares da equipe foram invadidos pelo software Pegasus, drones foram enviados às casas dos profissionais e agentes de inteligência permaneceram diante das residências. Depois vieram ameaças de morte e de carro-bomba, acusações de lavagem de dinheiro, auditorias por evasão de impostos e embargos de propriedades dos sócios.
Em determinado momento, os jornalistas foram avisados de que não deveriam voltar ao país porque seriam presos. Atualmente, toda a redação está fora de El Salvador. Ao todo, 50 jornalistas deixaram o país.
O governo também decretou um estado de exceção, renovado mais de cinquenta vezes. A medida permite que qualquer policial prenda uma pessoa sem ordem judicial, que seria levada imediatamente a uma prisão. Dada afirma que não existe mais direito à defesa.
“Bukele quem decide quem é criminoso e quem não é criminoso”, resumiu o jornalista ao descrever o controle do presidente sobre o Legislativo, o Judiciário, o Executivo, a Procuradoria-Geral da República, a Procuradoria de Direitos Humanos, a Polícia e o Exército.
Evento empresarial e efeitos nas prisões
O chamado modelo Bukele foi apresentado em 31 de agosto em um evento da Fiesp com candidatos da direita, entre eles Sérgio Moro, candidato ao governo do Paraná pelo PL, e Guilherme Derrite, candidato a senador por SP. O ministro de Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, participou do encontro. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, defendeu apoio a um novo governo para promover transformações no Brasil e aumentar a sensação de segurança.
Dada afirmou que o evento apresentou uma imagem construída por propaganda, sem expor os mecanismos concretos da política salvadorenha. Para ele, a apresentação tratou o conflito como uma luta entre o bem e o mal.
O jornalista também relatou mais de 400 mortes por tortura nas prisões de El Salvador, além da realização de audiências de custódia coletivas, com 100 ou 200 presos avaliados de uma só vez por um juiz. Entre os casos citados está o de um homem detido porque ficou nervoso durante uma abordagem policial. Em outra cidade, uma cooperativa de taxistas teria sido denunciada por uma concorrente, levando todos os integrantes ao encarceramento.



