A mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE) pretende explorar terras raras no Vale do Jiquiriçá, no sul do recôncavo baiano, em uma área que inclui uma comunidade rural e unidades de conservação. O projeto Monte Alto também prevê o aproveitamento de urânio e a construção de uma refinaria em Camaçari.
A iniciativa é conduzida no Brasil pela Borborema Recursos Estratégicos, subsidiária da BRE. A empresa tem Gina Rinehart entre os acionistas por meio da Hancock Prospecting. A bilionária australiana é uma das principais investidoras em terras raras fora da China e defensora da ideologia MAGA.
Comunidade relata pressão para vender terrenos
Monte Alto reúne cerca de 120 famílias. Moradores afirmam que 17 já venderam seus imóveis à Borborema. Eles também relatam aumento no trânsito de caminhões, circulação de máquinas de sondagem, barulho e alargamento de estradas.
Uma moradora identificada como Berenice, nome alterado por medo de represálias, disse que as abordagens da empresa provocaram “medo, pressão psicológica, até mesmo o adoecimento”. Em abril, um manifesto assinado por 104 das 117 famílias criticou a atuação da mineradora e da consultora Synergia Socioambiental, contratada para intermediar as negociações fundiárias.
A Borborema afirmou que não admite pressão ou constrangimento e que as negociações são individualizadas, com base em avaliações técnicas. A empresa também disse que direitos legais dos proprietários sobre uma eventual produção mineral não se confundem com a negociação dos imóveis.
Áreas protegidas estão na poligonal do projeto
A área requerida para mineração se sobrepõe à Área de Preservação Ambiental Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, que abriga nascentes e quedas d’água. Cerca de 18,4% da APA, equivalente a 42,2 mil hectares, está incluída no processo minerário do projeto. Há 29 requisições da Borborema no local.
A mineração pode ser autorizada em uma APA, mas a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, unidade de proteção integral dentro da área, não permite esse tipo de atividade. Mesmo assim, existem quatro processos minerários ativos da Borborema sobrepostos à estação, de acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM).
O Ibama apontou, em relatório de maio de 2025, que a cava prevista pode atingir nascente, curso d’água, remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete comunidades. O licenciamento ambiental da extração comercial ainda depende de análise do Ibama. A lavra experimental está em avaliação pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema).
Urânio e plano industrial
A BRE afirma que a região tem concentração de terras raras até 100 vezes superior à da Serra Verde, em Goiás. Um estudo publicado em 13 de agosto indicou teor médio de 11,3% de Óxidos de Terras Raras Totais em Monte Alto, contra 0,12% na Serra Verde.
A empresa também identificou urânio associado ao depósito. Moradores dizem que o tema não foi discutido nas reuniões comunitárias. A Borborema afirmou que não produzirá concentrado de urânio nem fará enriquecimento ou processamento químico na mina. A possível recuperação do material ficaria para uma futura planta industrial em Camaçari.
A ANSN informou que há um processo em fase inicial de avaliação regulatória e que não autorizou a produção de concentrado de urânio no empreendimento. A INB disse ter firmado um protocolo de intenções com a BRE para avaliar o aproveitamento do urânio como coproduto.
A empresa pretende transportar o concentrado por cerca de 260 quilômetros até Camaçari e implantar ali uma refinaria industrial. O plano inclui a produção de óxido de neodímio-praseodímio, concentrado de terras raras pesadas e yellowcake de urânio. A BRE aponta França, Japão e Estados Unidos como possíveis destinos da produção.



