O El Niño pode aumentar a frequência de sinistros das seguradoras no Brasil, mas os analistas consultados avaliam que o fenômeno não deve alterar a política de distribuição de proventos das empresas. A eventual pressão sobre os dividendos ocorreria por meio de uma redução proporcional ao lucro.
A BB Seguridade é apontada como a companhia mais vulnerável por causa da exposição agrícola direta da Brasilseg, enquanto a Caixa Seguridade é vista como a mais protegida. A Porto também pode sofrer efeitos, principalmente nos seguros de automóveis e patrimônio em áreas do Sul e do Sudeste sujeitas ao excesso de chuva.
Efeito sobre os resultados
Bruno Oliveira, do Vida de Acionista, considera pequeno o impacto do El Niño sobre a BB Seguridade. Ele afirma que a empresa já passou por mais de um ciclo do fenômeno sem registrar queda anual sequencial dos lucros superior a 10%, desconsiderados eventos não recorrentes.
Gregório Nissel, sócio e gestor da Rubik Capital, concorda que o efeito não deve ser suficiente para comprometer o resultado anual, mas avalia que haverá aumento de sinistros. Pela estimativa do Bank of America, ciclos anteriores elevaram a frequência de sinistros em 2 a 3 pontos porcentuais, com cada ponto capaz de consumir 1% do lucro.
Na carteira rural da BB Seguridade, Nissel afirma que o maior impacto histórico veio do La Niña. A sinistralidade rural da Brasilseg chegou a 109% na safra 2021/2022 e caiu para 34% na seguinte, diante de uma média histórica de 69%.
As enchentes do Rio Grande do Sul de 2024 também são citadas como exemplo de um efeito concentrado no trimestre e diluído no ano. O impacto líquido estimado na BB Seguridade foi de R$ 163 milhões, próximo de 2% do lucro anual, enquanto a sinistralidade geral subiu 31 pontos porcentuais no trimestre do evento.
Empresas mais expostas
A BB Seguridade é a única entre as companhias citadas com exposição agrícola direta e relevante, por meio da Brasilseg. A piora do crédito agro também pode reduzir a originação de apólices distribuídas pelo Banco do Brasil.
A Caixa Seguridade não atua em linhas agrícolas. Sua carteira está concentrada em seguros habitacional, prestamista, vida e previdência, com distribuição nacional. Além disso, 35% do lucro vem do resultado financeiro, o que torna a empresa mais sensível à Selic do que às condições climáticas.
Para Nissel, o El Niño pode afetar a BB Seguridade por três trimestres, entre o quarto trimestre de 2026 (4T26) e o terceiro trimestre de 2027 (3T27). Na Porto, a estimativa é de dois trimestres; na Caixa, o efeito seria nulo. Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, prevê impacto no 4T26 e no 1T27.
Dividendos e preferências dos analistas
A BB Seguridade distribui entre 80% e 90% do lucro, a Caixa Seguridade paga em torno de 90% e a Porto mantém payout de 50%. Segundo os analistas, não há indicação de mudança nessas políticas, embora o valor distribuído possa acompanhar uma eventual queda dos ganhos.
Nissel afirma que os pagamentos da BB Seguridade no começo de 2027 já estão garantidos, mas considera mais vulnerável a parcela prevista para setembro. Na Porto, os proventos são vistos como mais protegidos porque a companhia retém metade do lucro.
Oliveira prefere a BB Seguridade para investidores que buscam renda passiva. Simão também considera a empresa a melhor pagadora e vê perspectiva neutra para a Caixa, enquanto aponta a Porto como alternativa para ganho de capital. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, prefere a Caixa pela combinação de crescimento, previsibilidade e distribuição. Nissel escolhe a Porto, mas pelo potencial de crescimento, e não pelos dividendos.


