O aumento dos preços da energia elétrica reduziu a economia oferecida a consumidores que pretendem migrar para o mercado livre no Brasil. Comercializadoras ainda esperam expansão do segmento, mas avaliam que descontos menores podem diminuir o ritmo das adesões antes da abertura para novos grupos de consumidores.
Os descontos, que há três anos podiam chegar a 40% em relação aos preços do mercado regulado, hoje estão abaixo de 10%, conforme executivos do setor. Para 2027, as estimativas mencionadas por Maikon Del Ré Perin, especialista em risco e inteligência de mercado da Ludfor, ficam entre 5% e 10%.
“Lá em 2023 a gente conseguia fazer contratos de R$100 a R$150 o megawatt-hora. Hoje, para 2027, ele gira em torno da faixa de R$300”, afirmou Perin.
A alta começou em 2025, após mudanças nos modelos de precificação que deixaram o sistema brasileiro mais avesso a risco. O encerramento de um desconto para energias renováveis no uso das redes também elevou os custos dessas fontes e afetou os valores de novos contratos entre comercializadoras e consumidores.
O mercado varejista, formado por pequenas e médias empresas, ganhou força depois que barreiras à adesão foram eliminadas em 2024. Como parte do público potencial já migrou, as adesões caíram 34% de janeiro a julho deste ano na comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Empresas priorizam clientes atuais
Matrix e Echoenergia estão concentrando esforços na manutenção de suas carteiras neste ano, em vez de buscar uma expansão mais acelerada. As empresas também se preparam para novas etapas de abertura do mercado.
“O custo de aquisição do cliente é relativamente alto e agora o desconto que você consegue dar para esse cliente é pequeno”, disse Liu Aquino, CEO da Echoenergia. Segundo ele, a atividade e a intensidade de atendimento ao mercado diminuíram.
A Matrix, que tem a terceira maior carteira entre as comercializadoras varejistas do país, estabilizou suas operações diante dos preços e de uma inadimplência mais elevada, afirmou o vice-presidente comercial Alexandre Gomes. A comercialização varejista, porém, continua entre as prioridades da companhia, que passa por uma reestruturação e se desfaz de negócios como ativos de geração distribuída solar.
Gomes também afirmou que o preço não será o único instrumento para conquistar clientes. A Matrix tem oferecido soluções agregadas, como baterias, a empresas como supermercados.
Atualmente, o segmento varejista reúne cerca de 50 mil unidades consumidoras. A partir de novembro de 2027, hospitais, escolas e outros estabelecimentos ligados em baixa tensão poderão integrar o mercado livre, em um grupo estimado em cerca de 6 milhões de consumidores.
Em novembro de 2028, todos os 90 milhões de consumidores do país, incluindo residências, poderão escolher o fornecedor de energia. A migração não será obrigatória: os consumidores poderão continuar comprando energia da distribuidora local.
Empresas do setor ainda evitam prever a velocidade das migrações a partir de 2027, devido ao grau de incerteza. Perin avaliou que as condições podem melhorar caso as chuvas favoreçam a geração hidrelétrica, um fator relevante para os preços da energia no Brasil.



