A mudança no comportamento dos investidores reduziu o espaço de gestoras especializadas em fundos de ações e multimercados. Com a alta da Selic, a renda fixa ganhou preferência, enquanto títulos isentos de Imposto de Renda, ETFs e fundos de crédito privado aumentaram a concorrência dentro da indústria de fundos.
O ranking de gestão de fundos da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra que pelo menos 90 gestoras reduziram em 50% ou mais o patrimônio administrado em fundos nos últimos cinco anos. O grupo equivale a 8,37% das 1.075 gestoras contabilizadas em junho.
Quedas entre as maiores casas
A Verde Asset, de Luís Stuhlberger, tinha R$ 59,3 bilhões em julho de 2021 e passou a administrar R$ 12,7 bilhões em julho de 2026, recuo de 78,6%. A Truxt caiu de R$ 21,2 bilhões para R$ 2,6 bilhões, uma redução de 87,9%.
Na AdamCapital, do gestor Márcio Appel, o patrimônio passou de R$ 17,4 bilhões para R$ 2,9 bilhões, queda de 83,50%. A Bahia Asset recuou de R$ 15,8 bilhões para R$ 5,1 bilhões, enquanto a Leblon Equities passou de R$ 3,6 bilhões para R$ 700 milhões.
A Gávea, ligada ao ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, reduziu o patrimônio de R$ 14,7 bilhões para R$ 4,9 bilhões. A gestora anunciou recentemente a venda de sua gestão de fundos para a Bradesco Asset.
A redução do patrimônio registrado não significa necessariamente que a gestora esteja em crise. O negócio pode ter reduzido custos, migrado para carteiras administradas ou ampliado operações em fundos no exterior, modalidades que não entram no ranking da Anbima.
A Truxt informou que aumentou sua fatia offshore desde 2021. A gestora também disse ter recebido aporte de R$ 600 milhões em dois fundos de ações em julho e agosto, período que não aparece no ranking. Esses fundos acumulam rendimento de 17% a 20% no ano.
Vendas, incorporações e encerramentos
Algumas empresas reduziram a operação de fundos por meio de vendas ou transferências. A Navi vendeu seu núcleo de fundos imobiliários para a Vinci Compass. Em janeiro, a Canvas Capital transferiu uma linha de fundos sistemáticos, com decisões tomadas por algoritmos, para outra gestora.
A Geo Capital vendeu 70% da operação em junho para a HIX Capital, mas continuou como unidade de negócios independente dentro da nova estrutura.
A lista também deixou de considerar gestoras que encerraram atividades, foram incorporadas, administradoras de fundos, gestoras de patrimônio que atendem apenas uma família e a Reag Investimentos, que encerrou as operações após aparecer relacionada à operação Carbono Oculto da Polícia Federal.
Entre as empresas incorporadas ou encerradas estão Schroder Brasil, Zeitgeist Tech, Tork Capital, Solana, Gauss e Gap. A Zeitgeist Tech foi incorporada à Giant Steps; a Solana foi internalizada à Itaú Asset em abril; e a Gauss foi adquirida pelo ASA no ano passado. A Gap encerrou a gestão de recursos de terceiros também no ano passado.
A Novus Capital anunciou em julho a transferência de fundos e equipes para a Leto Capital e a Occam. A Miles Capital foi vendida em 2025.
Ações também perderam patrimônio
O movimento atingiu gestoras conhecidas por fundos de ações de longo prazo. Esses fundos registram resgates de investidores por 61 meses consecutivos.
A IP Gestão de Recursos passou de R$ 5,1 bilhões para R$ 2,4 bilhões, baixa de 53,1%. A Constellation, do gestor Florian Bartunek, caiu de R$ 8,3 bilhões para R$ 1,3 bilhão, recuo de 84,8%. Considerando clientes estrangeiros, o patrimônio da casa chega a R$ 2,9 bilhões, o que reduz a queda para pouco mais de 60%.
A Dahlia saiu de R$ 12,2 bilhões para R$ 2,8 bilhões, enquanto a Absoluto passou de R$ 14,4 bilhões para R$ 3,8 bilhões, com perdas de 77% e 73,30%, respectivamente.
Especialistas associam o crescimento dessas gestoras à queda dos juros para 2% ao ano durante a pandemia. Com a alta posterior da Selic, parte dos investidores migrou para a renda fixa. A isenção de Imposto de Renda em produtos como debêntures incentivadas, LCI, LCA, CRI e CRA também reduziu o fluxo para alguns fundos. FIIs e Fiagros podem distribuir rendimentos isentos para pessoas físicas quando determinadas condições são atendidas.
Pressão sobre as gestoras médias
O professor de finanças da Fundação Getulio Vargas William Eid avalia que muitos empreendedores acreditaram ser simples criar gestoras para distribuir fundos em grandes plataformas. “Todo mundo achou que era fácil montar uma gestora para distribuir fundos para a XP e outras plataformas. Não era, e a maior parte fechou”, afirmou.
Segundo Eid, bancos e grandes gestoras ampliaram a oferta de produtos e passaram a disputar também classes especializadas. As casas médias ficaram entre grandes grupos e operações menores. A competição aumentou ainda com fundos de crédito privado, ETFs e fundos internacionais, que podem ter custos diferentes dos multimercados.
O professor também aponta o desempenho fraco de alguns produtos. “É difícil explicar para o cliente que ele deve manter o multimercado para ganhar quase nada acima do CDI”, disse.
A Resolução 175 permitiu classes e subclasses de cotas, maior diversificação, acesso do varejo a alguns produtos e redução de custos regulatórios. Ao mesmo tempo, deixou a gestão mais cara. Para Eid, gestoras médias generalistas estão desaparecendo, enquanto a concentração entre as maiores aumenta. Devem permanecer as casas especializadas com resultado e os grandes gestores.



