O empreendedorismo digital, a busca por sentido e a revisão das próprias escolhas aparecem conectados em três livros recentes sobre vida profissional. As obras partem de situações diferentes — uma empresa construída ao longo do tempo, um empresário confrontado com a própria insatisfação e um personagem que perde o negócio — para discutir os limites de uma trajetória baseada apenas em resultados externos.
Um negócio construído com a escuta das redes
Em O buzz nosso de cada dia, Alessandro Barbosa Lima narra a criação da Elife e, depois, da plataforma Buzzmonitor, voltadas ao monitoramento e à análise de opiniões publicadas nas redes sociais. O autor conta que começou o negócio em 2004 com o amigo de infância Jairson Vitorino. Os dois eram pernambucanos recém-chegados a São Paulo e não contavam com investidores externos.
Os primeiros relatórios eram feitos manualmente em planilhas. Depois de 20 anos, o grupo emprega mais de mil pessoas na América Latina e, conforme informações divulgadas pela empresa, tem faturamento anual superior a R$ 120 milhões.
Dividido em onze lições, o livro combina autobiografia empresarial, exemplos de mercado e reflexões sobre comunicação digital. Comentários, reclamações e elogios publicados na internet são apresentados como dados usados pelas empresas em áreas como marketing, atendimento ao consumidor e gestão de crises.
A obra também trata dos dilemas ligados à inteligência artificial, à polarização, às notícias falsas e à saúde mental. Ao abordar a mistura entre informação, entretenimento e opinião, Lima relaciona as oportunidades econômicas da escuta das redes às responsabilidades de empresas, profissionais de comunicação e sociedade.
Quando o patrimônio não resolve a crise
A experiência de Dante Valente, personagem de O Tabuleiro da Existência, começa em um ponto oposto ao de quem ainda busca enriquecer. Empresário rico, reconhecido e habilidoso nos negócios, ele alcançou sucesso profissional, mas convive com uma insatisfação profunda.
Após morrer em um acidente aéreo, Dante chega a um espaço metafísico descrito como um tabuleiro suspenso no infinito. Ali, enfrenta questões ligadas ao passado, aos medos e aos padrões de comportamento que conduziram sua vida. O resultado dessa travessia definirá seu destino espiritual.
O personagem é acompanhado pelo filósofo, pelo terapeuta e pelo espiritualista. As três figuras representam etapas do autoconhecimento: o questionamento das aparências, a investigação de feridas e comportamentos recorrentes e a ligação entre a experiência individual e uma dimensão transcendental.
Marcelo Neri reúne na narrativa referências da filosofia, da psicologia, da neurociência e da espiritualidade. A trama também dialoga com a experiência do autor como executivo do setor marítimo e portuário e com a busca por respostas fora do ambiente corporativo. O livro discute como o desempenho pode esconder crises pessoais difíceis de perceber.
A queda de uma prosperidade sem base
Em O Velho Sábio e a Verdadeira Riqueza, Manassés Carloto acompanha Mateus, que deixa a aldeia natal com dez moedas de ouro e decide enriquecer a qualquer custo. Para obter retorno imediato, ele constrói uma pousada de luxo sobre um terreno instável.
O empreendimento atrai hóspedes e cresce rapidamente, mas é destruído por uma tempestade. A perda obriga Mateus a examinar os erros da construção e a fragilidade das referências que orientavam sua vida. O encontro com o Velho Sábio amplia essa revisão para o valor da comunidade, das relações e do legado.
Empresário e escritor, Carloto usa elementos tradicionais das parábolas, como a partida, a ambição, a queda, a presença de um mentor e a possibilidade de redenção. Na narrativa, a prosperidade deixa de ser apenas acúmulo de bens e passa a envolver caráter, responsabilidade social e impacto sobre outras pessoas.
As três obras seguem caminhos distintos. A fábula mostra um jovem que confunde riqueza com patrimônio; o romance metafísico apresenta um empresário que alcançou dinheiro e prestígio sem encontrar satisfação; e o relato de Lima descreve a formação de uma empresa e os problemas associados à inovação.
Em comum, os livros tratam o sucesso como um processo, não como um ponto final. Escolhas, relações, aprendizado e responsabilidade aparecem como elementos necessários para avaliar o que permanece quando os resultados externos já não bastam.



