O livro Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo, do psicanalista, professor e pesquisador Marcio Garrit, retoma conceitos de Sigmund Freud para analisar como as tecnologias digitais transformaram a organização das massas. Publicada pela Editora Pangeia, a obra investiga mudanças nas formas de liderança, pertencimento e influência coletiva desde a publicação de Psicologia das Massas e Análise do Eu, em 1921.
Garrit dialoga com a tradição psicanalítica e com autores como Freud e Étienne de La Boétie. O foco não está apenas na política ou nas redes sociais, mas na participação de algoritmos, plataformas digitais e novas tecnologias na formação de crenças, identificações e vínculos sociais.
Crenças e pertencimento
O autor propõe o conceito de “ilusão coletiva” para descrever um fenômeno que, segundo ele, vai além da circulação de desinformação. Algumas crenças se fortalecem por atenderem a necessidades psíquicas, como desamparo, pertencimento, proteção e reconhecimento. Por isso, fatos e argumentos podem não ser suficientes para alterar convicções que passaram a cumprir uma função emocional para quem as sustenta.
“O problema talvez não seja uma crise da verdade. A verdade nunca foi o principal motor das massas”, afirma Garrit. Para ele, as pessoas também se organizam em torno daquilo que oferece pertencimento, esperança e sentido.
O livro sustenta que os mecanismos descritos por Freud continuam presentes, mas funcionam em um ambiente diferente. Antes, líderes dependiam de partidos, igrejas, jornais e eventos públicos para mobilizar multidões. Hoje, alcançam milhões de pessoas de forma contínua por meio de redes sociais e plataformas digitais.
“O líder saiu do palanque e entrou no celular”, resume o autor. A partir dessa mudança, a obra examina os efeitos das plataformas sobre o funcionamento psíquico, os processos de identificação e a formação das massas digitais.
A análise também aborda algoritmos, inteligência artificial, influenciadores e novas formas de liderança. O objetivo é aproximar fundamentos da psicanálise de fenômenos ligados à cultura, à política e à vida cotidiana, incluindo o ciberpopulismo e a formação de bases de apoio nas redes, fora das instituições tradicionais.



