A previdência privada atravessa uma mudança de estratégia após a cobrança de IOF sobre aportes elevados, mas a avaliação da Mio, seguradora da Vinci Compass, é que o produto continua relevante para o planejamento financeiro de longo prazo. Para Vinicius Albernaz, sócio responsável pela empresa, o mercado deve se adaptar com contribuições recorrentes em vez de grandes aplicações feitas de uma só vez.
O IOF passou a incidir sobre planos Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) em junho de 2025. Atualmente, a cobrança vale para aportes acima de R$ 600 mil por ano, mesmo quando os recursos são distribuídos entre diferentes seguradoras.
Mudanças no comportamento do investidor
Albernaz afirma que a medida reduziu o espaço para aportes elevados, que eram frequentes, mas não deve provocar uma queda prolongada na importância da previdência. “Não vejo a previdência sendo afetada de forma dramática nos próximos anos”, disse.
A captação líquida — diferença entre os valores aplicados e os resgates — somou R$ 7,3 bilhões nos sete primeiros meses de 2026. O resultado representa queda de 36,8% em relação ao mesmo período de 2025, conforme o relatório mais recente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), publicado na última terça-feira (15).
Para o executivo, a cobrança afeta principalmente quem fazia aplicações expressivas de uma vez. A alternativa, nesse caso, é distribuir os aportes ao longo do tempo. Ele não considera que o IOF retire a atratividade da previdência para investidores de alta renda, mas reconhece que o imposto precisa entrar no planejamento.
Regras e planos oferecidos por empresas
Na avaliação de Albernaz, alterações regulatórias podem apoiar o crescimento do setor. A lei 14.803/2024 passou a permitir que o participante escolha entre os regimes progressivo e regressivo de tributação no momento do resgate ou do recebimento do benefício. Antes, essa definição ocorria na contratação.
A Resolução do Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) nº 60/2024 também autorizou planos corporativos no modelo option-out. Nesse formato, o funcionário é incluído automaticamente e pode sair caso manifeste essa escolha. “Sou um grande defensor desse formato”, afirmou Albernaz.
A Mio Vinci Compass atua com planos oferecidos por empresas aos funcionários. A companhia trabalha atualmente com 20 empresas, alcançando em torno de 15 mil trabalhadores. A seguradora está ligada à Vinci Compass, companhia listada no exterior com R$ 361 bilhões sob gestão e assessoria.
Custos, tecnologia e adesão
O setor ainda tenta superar a percepção de que os fundos de previdência tinham custos elevados e incompatíveis com as estratégias de investimento. Segundo Albernaz, a taxa de carregamento deixou de existir, enquanto a entrada de novos participantes no mercado pressionou pela adaptação das despesas. As regras também ampliaram as classes de ativos nas quais os fundos podem investir.
No Brasil, 11,2 milhões de pessoas investem em previdência privada, enquanto a população ultrapassa 214 milhões de habitantes. Entre os desafios apontados pelo executivo estão a educação financeira, a simplificação dos produtos e o uso de tecnologia para que os investidores acompanhem seus planos.
Na visão dele, os serviços digitais avançaram mais rapidamente em outras áreas do mercado financeiro. As seguradoras investem em transformação digital, mas sistemas antigos dificultam a inovação. A defasagem seria maior na previdência corporativa, segmento que recebe menos investimento de muitas empresas.
Albernaz também afirma que a tecnologia, sozinha, não resolve o problema. Para oferecer conveniência, os aplicativos precisam estar integrados a sistemas capazes de personalizar os portfólios de previdência privada.



